Opinião
Sonhar com pesadelos
| Walmar Buarque * De que sinto mais falta? De mil coisas! Depois de tantos anos em busca e no anseio pelo calor, pelo carinho, pelo meu lugar nos braços de meus pais, sinto falta de ficar de mãos dadas na rua, de ouvi-los dizer: ?Minha coisinha linda, eu te amo...!? Sinto falta de poder dizer a eles coisas minhas, sem a menor importância e até mesmo de coisas importantes, qualquer coisa, tudo o que eu quisesse dizer. Fico pensando, olhando para o nada, cheirando a minha garrafa com cola como se eu estivesse ocupado no trabalho. Tenho um vazio muito grande em mim, que bem poderia ser saudade, se algum dia tivesse essa oportunidade de dividir com meus pais, ou pelo menos, com minha mãe esses momentos de amor e amizade. Sinto falta de uma escola onde eu poderia conquistar amigos que me acompanhassem nas brincadeiras e nos planos futuros de vida. Nunca tive oportunidade de chegar em casa e encontrar meu prato preferido. Hoje, eu nem saberia dizer que comida eu mais gosto, pois como de tudo, os restos que me dão e o que recolho no lixo. Sinto falta de tudo, não sei porque canto nem mesmo porque, às vezes, sorrio. O pior de tudo é que Deus me deu a memória e os pensamentos, e, às vezes, fico confuso pensando se isso que está acontecendo são recordações passadas ou se são sonhos não realizados. Mas ainda bem que tenho alguns amigos que não só querem me dar sopa ou resto de comida, tenho também amigos como você que me ouve, e mesmo calado me enche de alegria por eu ter a oportunidade de conversar com alguém. Nós que trabalhamos para as conquistas de direitos das crianças e adolescentes em situação de risco temos de ter consciência que estamos plantando rosas para que sejam cultivadas e sejam belas, não promovendo e incentivando aberturas de trincheiras contra os que marginalizam e ferem mortalmente as vidas e os sonhos desses adolescentes. Será que teremos de organizar um movimento semelhante com essas mesmas práticas ameaçadoras para que os direitos das crianças, adolescentes e jovens adultos de rua sejam conquistados? Reflita, converse mais em família, com seus amigos políticos, com os dirigentes de ONGs a quem temos de ouvir mais, para fazer mais pelos meninos e meninas de rua que perambulam acompanhados de jovens adultos, situação essa que hoje ainda oferece pouco perigo, mas que amanhã se transformará, inevitavelmente, num conflito maior. (*) É coordenador do Catarse.