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Ensinamentos do Katrina

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| Bernardo Joffily * A primeira lição da passagem do ciclone Katrina pelo sul dos Estados Unidos há de ser a do combate da humanidade com a natureza. Os fundamentalistas do ambientalismo que me perdoem, mas ele existe e se desenvolve desde que o homo sapiens habita este planeta. O bicho homem se distingue de seus primos de outras espécies justamente por essa belicosa rebelião. É o bicho que trabalha, portanto o bicho que se destaca da natureza, que a transforma e a subjuga, ao contrário de seus parceiros de animalidade, que a ela pertencem. É a luta do capitão Ahab com Moby Dick, que se trava sem quartel há mais de um milhão de anos. A aquisição que o ambientalismo traz para ela é que, do ponto de vista humano, não interessa a rendição ou o aniquilamento do adversário. Mas o seu controle sim, cada vez maior. Sempre que a natureza ataca, como no Tsunami de dezembro, ou na pandemia da Aids, ou agora, com o Katrina, a obrigatoriedade desse combate se evidencia. Do nosso antepassado que primeiro usou um galho para cavar uma raiz, passando pelos canais do Iraque de seis milênios atrás, até a revolução biotecnológica em curso, para citar alguns exemplos, as sociedades humanas diferem entre si, na concepção, na escala e na eficácia com que promovem o enfrentamento com a natureza. E a tecnologia é apenas uma das esferas dessa diferenciação. Tomemos os EUA às voltas com o Katrina. Quem lhes negará a primazia em recursos materiais e técnicos para enfrentar uma catástrofe assim? No entanto, o que o mundo assistiu nesta semana é uma derrota, retumbante e humilhante, face a uma investida da natureza que nem esteve entre as mais desafiadoras, já que foi prevista com dias de avanço e podia perfeitamente ser enfrentada com êxito. Os EUA possuem o Centro Nacional de Furacões, em Miami, o maior e mais ágil acervo de informação sobre ciclones. Possuem aviões dotados de aparelhos capazes de penetrar no olho das tormentas, decifrar seu poderio, seu sentido e ritmo. Por que então 250 mil seres humanos foram deixados ao Deus-dará, só em Nova Orleans? Por que as cenas dantescas de cadáveres insepultos, multidões em estádios, gente passando fome, ou se pisoteando para subir num ônibus? Que superpotência é essa que não consegue enfrentar um ciclone como o faz Cuba, sua pequena, pobre e bloqueada vizinha do Golfo do México? O Estado americano, o mais colossal do planeta, revelou-se um anão anêmico e atoleimado quando foi chamado nesses dias a defender as vidas dos seus cidadãos do Sul. (*) É jornalista.

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