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Opinião

Antropofagia

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| Eduardo Bomfim * A eleição do atual presidente da Câmara dos Deputados, Severino Cavalcanti, favorecida pelo lançamento de dois candidatos do PT ao cargo, possibilitou à oposição e a setores descontentes com o governo meter uma cunha entre os dois nomes, derrotar o Planalto e mais precisamente o Partido dos Trabalhadores. Deste episódio, evidencia-se mais uma vez que, na vida como na política, não se deve ter como parâmetro a soberba. Trata-se evidentemente de enfermidade que aflige principalmente os governistas. Nem todos possuem a clareza de um Winston Churchill, que tinha para si a máxima: ?Na guerra, determinação. Na derrota, insurgência. Na vitória, magnanimidade. Na paz, boa vontade?. Se ele sempre a aplicou, são outros quinhentos. Os que se encontram na oposição, resistindo a toda sorte de infortúnios, são mais difíceis de serem acometidos deste mal. Não porque estejam imunizados, os casos, mesmo nestas circunstâncias, são vários, mas a adversidade impõe algum tipo de humildade, respeito ou temor ao adversário, dependendo das condições da luta. Temos ciência de que toda crise política possui uma característica singular: sabe-se como ela inicia, mas o seu desfecho é um suspense digno de um clássico do gênero. Ao ser deflagrada, após determinado momento, adquire dinâmica contínua, quase incontrolável. Eleito, Severino mostrou o que ele realmente sempre foi: detentor de inúmeros mandatos, representante na Casa do ?baixo clero?, arguto, mas sem a estatura que a responsabilidade do cargo lhe reservava como um dos três principais representantes da República. Todos os parlamentares tinham conhecimento das suas possibilidades e limitações. Celebrado inicialmente, de maneira efusiva, por setores da grande mídia nacional, interessada em impor qualquer derrota que fosse ao governo, principalmente na presidência da Câmara dos Deputados, tornou-se rapidamente uma caricatura nacional, com a camisa desabotoada e o umbigo à mostra. Daí, resvalou-se para o preconceito contra os nordestinos, peixeira na mão, chapéu de cangaceiro, cartucheiras cruzadas por entre os ombros. Severino, o analfabeto, incivilizado. Tudo isto com a complacência, o sorriso maroto de vários deputados, alguns, nordestinos tidos como letrados, que nele votaram. Na carruagem em que a crise política é transportada, Severino pode ser sacrificado através da denúncia de propina, de acordo com o proprietário do restaurante da Câmara. Severino deixou de ser útil. Passou ao cardápio. (*) É advogado e secretário estadual de Cultura.

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