Opinião
Severino e os m�dicos
| Ronald Mendonça * É grave a situação dos funcionários públicos em geral e a dos médicos em particular. Evidentemente que não é de hoje, por isso não se deve creditar somente ao atual governo todas as nossas desventuras. No entanto, a proposta de 0,1 por cento de aumento salarial fala por si só sobre a exata dimensão do respeito que o presidente e sua equipe nos devotam. (Ouvi dizer que os ministros acharam muito...). A propósito, há uns meses circulou pela Internet o vídeo de uma entrevista de um dos programas policiais da TV local, em que participaram um velho decrépito e uma prostituta. Até aí nenhuma novidade. O problema era que o homem negava-se a pagar o valor de trinta reais de honorários, exigidos pela ?profissional do sexo? - como ela se autodenominava. Sem entrarmos nos detalhes sórdidos do relato minucioso dos serviços recebidos, o fato é que, no final de tudo, o velho admitiu dar cinco mil réis ?para fazer favor?. É justamente por aí: os funcionários públicos estão sendo tratados como a prostituta da TV. Em relação aos médicos, a coisa se estende aos honorários de consultas e cirurgias do SUS e de convênios. Quanto ao SUS, o que se recebe é tão horroroso que não é de admirar a quantidade de doentes amontoados nos corredores e becos da Unidade de Emergência, sem que ninguém se anime a transferi-los. (Alô, Alô, CRM.) Pessoalmente, não tenho qualquer ilusão: a questão SUS-médicos é irremediavelmente perdida. Pior de tudo mesmo é o abuso dos planos de saúde. Sim, porque é explorando o nosso trabalho que essas empresas (Bradesco, Sul América, Golden Cross e outras) ganham rios de dinheiro. O leitor não-médico talvez desconheça que esses planos de saúde resistem a atualizar uma tabela de 1992! De sobra, estão os clientes que não tendo planos de saúde recebem nossos serviços e, podendo pagar, recusam-se a fazê-lo. Com efeito, causa perplexidade a cara-de-pau dessa gente. Na maioria das vezes são pessoas que nunca vimos, ou não temos relacionamentos estreitos, mas que na hora de cumprir a obrigação de saldar suas dívidas fazem corpo mole, protelam, escondem-se, criam fatos; debochados, até advogados arranjam. A intenção é uma só: o calote. Quanto ao mensalinho de Severino Cavalcanti, título dos presentes comentários, convém dizer que daria para contratar 10 médicos ou pagar 40 cirurgias de tumor cerebral - pelo SUS. Se preferirem, a ?babinha? de Severino dá para comprar 500 litros de óleo de peroba por mês. (*) É médico e professor da Ufal.