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Opinião

Hist�rias de antigamente

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| Lysette Lyra * Minha mãe nos contava que num sobrado, cuja fachada coberta de belos azulejos portugueses, situado em São Luís, viveu dona Everildes, lá pelos idos de 1820. Uma opulenta mulher quarentona, sempre tão apertada nos espartilhos que seus seios quase saltavam pelo pronunciado decote. Tinha o rosto alvo e redondo, o nariz aquilino, os olhos pequenos e os lábios demasiados finos, eram sombreados por um buço ralo. Seu marido, sr. Fagundes, não obstante os sessenta anos, mostrava-se, ainda, um guapo mancebo grisalho, de bigodes hirsutos. Quando se casaram ela era uma jovem esguia e cheia de viço. As mulheres de seu tempo não possuíam muita instrução, viviam em função da maternidade e do lar. Grande dona de casa, mas cercada de tantos empregados, dona Everildes acabou por se entregar ao ócio, afogando suas frustrações nas guloseimas preparadas pelas mucamas da cozinha. Malgrado as relações íntimas matrimoniais serem concluídas debaixo dos lençóis, e na escuridão da alcova, entre inibidas excitações, possuíam nove filhos: quatro homens e cinco mulheres. Para as filhas, vinha à casa uma professora que cuidava das letras. O pai, um homem de maior visão, não desejava que as moças fossem ignorantes como a genitora, que mal assinava o nome. Cônscia de suas limitações e de seu aspecto físico, e, incapaz de conter-se diante de uma mesa farta, dona Everildes se tornou uma mulher prepotente e ciumenta do marido que, desprezando-a, dava suas escapadelas até o bordel de mme. Regine, ou passava as noites em volta de uma mesa de pôquer, bebendo com os amigos. Ela descontava nos escravos as suas insatisfações. Era de uma maldade tão grande com os negros, que se tornou comentada em toda capital. Havia uma escrava, que servia a mesa. Jovem bem fornida, de ancas torneadas, seios redondos e rijos, braços roliços, e, quando sorria mostrava uns dentes alvos e certos. Desde menina ela ajudava nos serviços da copa, mas cresceu e, de repente, seu físico passou a chamar a atenção do ?senhorzinho?, que, disfarçadamente, dava suas olhadelas nas formas da negrinha. Desgraçadamente, quando a moça servia o jantar, ?seu? Fagundes, não se contendo, resolveu externar, com a família, sua opinião a respeito dos dentes brancos e perfeitos da escrava. Dona Everildes nada disse, mas por dentro ficou se roendo de ciúmes, sobretudo quando constatou que o marido tinha razão. Esperou pelo dia seguinte e chamando o capataz, ordenou-lhe que quebrasse toda a dentadura da pretinha. (*) É escritora.

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