Opinião
Nada a comemorar - Editorial
Ontem, Dia de São Francisco, data de aniversário da descoberta do rio que já foi chamado de ?rio da integração nacional?, foi um dia de polêmica, de protestos e de uma boa dose de desunião nacional. Motiva toda essa querela uma proposta conhecida e combatida desde os tempos do governo FHC, quando a idéia da proposição ganhou ares de projeto salvacionista e cifras milionárias. Ainda no governo FHC, essa proposta ensejou grandes debates e as questões técnicas e políticas inerentes a essa obra foram exaustivamente estudadas. Particularmente, o tema foi bastante discutido nos municípios ribeirinhos. E as fragilidades técnicas do projeto de transposição ficaram evidentes, da mesma forma como os objetivos políticos e eleitorais foram desnudados. Além das óbvias críticas às imperfeições e superficialidades técnicas e a indigência científica do projeto do governo FHC, os debatedores de todas as instâncias e municípios envolvidos definiram um consenso: a necessidade e prioridade absoluta para um projeto de revitalização do Rio São Francisco. A revitalização foi identificada como uma urgência urgentíssima dado aos riscos de desastre ecológico que pairam sobre o Rio São Francisco depois de quase meio milênio de uso predatório e de depredação generalizada de seu ecossistema. Mudou governo e o projeto não mudou, seguiu e segue adiante como ameaça explícita ao Velho (e debilitado) Chico. Ontem, na festa de aniversário, não houve presente para o Rio. Está havendo um sacrifício humano, levado adiante por dom Luiz Flávio Cappio, frei franciscano e bispo da diocese baiana. Às custas de sua saúde e, quiçá, de sua própria vida, o religioso, que nasceu no Dia de São Francisco, se oferece em holocausto para tentar salvar o Rio. Mas, nem a sombra desse sacrifício parece sensibilizar os defensores dessa agressão ao Velho Chico.