Opinião
Alta tens�o - Editorial
O vaivém dos invasores de terrenos como o da Ceal (invasores esses que não são integrantes de nenhum grupo organizado) comprova como a crise social vai se ampliando de forma grave. Os pobres em demasia, hoje rotulados de ?excluídos?, sempre foram impelidos a construir seus abrigos precários em áreas ?de ninguém?. Essas áreas supostamente disponíveis sempre foram áreas de risco, há muito tempo eram os mangues, depois as grotas foram se transformando no receptáculo das famílias sem eira nem beira. Hoje, um grande número de pessoas se dispõe a se atracar com a polícia, a retornar para onde foram expulsos ? e que lugar é esse: uma tremenda área de risco, as faixas de terra debaixo das linhas de alta-tensão. Para os pobres, os excluídos, de todos os tempos, as áreas disponíveis sempre foram aquelas que não poderiam ser ocupadas por quem tem algo a perder. Só os que nada tem, nem mesmo o que perder, podem se arriscar a buscar abrigo em pontos de alta periculosidade. Não haveria diferença entre os ?flagelados? de ontem (e que lotavam as baias da pecuária a cada cheia da Lagoa Mundaú) e os moradores debaixo dos fios de alta-tensão da Ceal. Em qualidade, talvez não haja diferenciação, mas em termos de quantidade, hoje a situação é imensamente mais grave e se as cocheiras da Pecuária voltassem a ser abertas para servir de abrigo de gente, não teriam como dar conta do número de desabrigados por qualquer flagelo. Houve um tempo onde Maceió só se reconhecia como possuindo ?uma única favela?, a comunidade do Ouricuri. E hoje? Será bom pesquisa para dimensionar a quantas anda o esgarçamento do tecido social alagoano, pesquisa essa que deveria tomar como uma das bases de estudo a proliferação da população desabrigada. A partir daí, talvez as autoridades se convencessem da gravidade do problema de Maceió.