Opinião
Dedinhos
| PATRÍCIA TENÓRIO * Se eu pudesse tocar os cabelos, castanhos, macios, ondas em devaneio, brincando de esconde-esconde com os olhos, de onde a luz brota, abre as janelas da alma, incandescente fogo, jamais apagado, para sempre aceso, fecham-se no toque, os cílios, portas, teimam em não deixar correr a pequena gota do que está contido, poderia deslizar sobre o nariz, respira meu cheiro, cheiro doce, suave, cândido, das rosas apenas emprestado, deleite de duas pessoas, ou descer para lábios, sedentos dos beijos, o queixo forte desvanecendo, cederia aos encantos, brilho, a pele esperando carícias, segurando o palpitar do coração, subindo a garganta, pescoço, a nuca arrepiaria com a presença dos dedos, dedinhos dedilham canções de ninar, atravessa ombros tal montanha majestosa nos desfiladeiros do peito, braços, levam-me às mãos que desejo segurar, então pularmos muros, saltitantes, quase crianças, com nossas pernas bambas daquela alegria tilintada dos bem-te-vis, colhendo bem-me-queres, ganhar mundo, atravessando pontes, distribuir sorrisos, tons de vermelho, verde vivo, lilás, todo um arco-íris de emoções, onde o pote dourado nos derrama bênçãos, traz nuvens de algodão que deixam cair chuva, nos aproximando para abraçar costas, corações unidos, batendo no mesmo ritmo, música delicada, sobressalto de quando em vez, para lembrar que não somos eternos, que um dia seremos levados para junto de nosso Deus-Pai, quando nosso pulsar sintoniza com o Dele, e o calor infinito que nos invade inteiros torna-se infinito, tão infinito como o céu azul que por Ele nos foi dado, presente por nós recebido, gratidão de uma vida inteira, privilégio por termos permitido que os dedos, dedinhos, dedilhassem nossos ?eus? e nos transformassem nas criaturas que espalhariam o mesmo sentimento, pais e filhos, irmãos, amigos, primos, dá um frio na barriga, nó na garganta, sensação de volta à casa materna, ventre ao qual pertencemos, gerando, vida, lar, continuação na Terra do que achávamos que somente encontraríamos depois, de onde viemos, para onde voltaremos, almas gêmeas que procuram sol, sal, sabor, dos mais tenros frutos a serem degustados, sorvidos, emergidos um no outro, um, outro, um único, corpo, alma e coração, movidos pelo maior, encantador, mágico sentimento de todos, sentido de uma existência, caminho que devemos trilhar sem medos, temores, tal certeza de que, sem experimentá-lo, caímos no mais profundo abismo, vazio, por não pertencer, sobreviver, para quê? ? melhor viver para quem os dedinhos insistem, bricalhões, sapecas. (*) É escritora.