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O mar que virou sert�o

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| JORGE BRISENO * ?O sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão?. Essa profecia de Antônio Conselheiro, cuja epopéia e dos seus seguidores, foi retratada em dois livros: Os Sertões, do brasileiro Euclides da Cunha e em A guerra do fim do mundo, do peruano Mário Vargas Llosa. O Mar de Aral, situado nas fronteiras do Cazaquistão e Uzbequistão, na Ásia Central, está virando um ?sertão?. Esse desastre ecológico foi provocado por um projeto megalomaníaco de irrigação, realizado sem nenhuma preocupação com sua viabilidade ambiental, com o objetivo de irrigar extensas áreas cultivadas com algodão e arroz, levando o Mar de Aral, o quarto maior lago interior do mundo, para uma situação de completa exaustão. Esse fabuloso corpo d? água chegou a perder metade de sua área e, pasmem, 75% de sua capacidade de acumulação, de seu volume. Ele literalmente secou! Como ocorreu esse desastre, perguntaria o bispo Luiz Flávio Cappio, que recentemente estava em greve de fome contra as obras de transposição do Rio São Francisco. Ora, meu caro bispo, o Mar de Aral foi vítima da estupidez e cobiça do homem quando coloca o lucro acima de todas as coisas, esquecendo das lições de São Francisco de Assis. Êpa, lá vem de novo o nome São Francisco. No entanto, voltemos ao Mar de Aral. Esse lago é alimentado por dois rios. O rio Amudarya e o rio Syrdarya. Parte das vazões desses dois rios foi desviada para a irrigação, impedindo que suas águas chegassem ao Aral. Milhares de pessoas, na sua maioria pobres e sem grande capacidade de influir politicamente nas decisões, ficaram privadas de seu abastecimento de água potável e de uma cultura pesqueira próspera. Além do aumento da miséria, toda a região tem sofrido com elevadas taxas de morbidade devido a doenças diarréicas provocadas pela utilização de fontes alternativas de água de péssima qualidade, diante do colapso dos seus sistemas de abastecimento, que utilizavam as águas do delta do Aral. A calamidade, provocada pelo desastrado projeto de irrigação, custará alguns milhões de dólares que estão sendo gastos para reverter os danos ambientais. Ciro Gomes, misto de dândi e menino de recado de grupos empresariais cearenses, interessado nas águas do Velho Chico para seus projetos de irrigação, deve visitar a região do Mar de Aral. Você, bispo Cappio, tomado de uma loucura santa, mostrou a grande hipocrisia do Governo Lula que utiliza, como biombo, o discurso de que deveremos dar água aos irmãos dos outros estados, principalmente o Ceará, para esconder o seu objetivo - beneficiar os grandes grupos empresariais. (*) É engenheiro da Casal.

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