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Opinião

Competi��o irracional

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| Sérgio Costa * Rodei a chave na ignição e decidi enfrentar as esburacadas estradas que me levariam ao semi-árido nordestino. Fui para ver e vi, em síntese, o sofrimento de comunidades próximas ao Rio São Francisco necessitando de água para sobreviver. E dizer-se isso sobre uma região que viu onze de seus filhos alçados à presidência da república. Um escárnio governamental que parece eternizar o sofrimento da vida humana, bem como a da fauna e flora. A realidade foi mais pungente que a minha expectativa. De volta para casa, fiquei observando a paisagem. O sol impiedoso e os longos períodos de estiagem haviam transformado o verde fértil num marrom árido e fúnebre. E as folhas secas sinalizavam a minguada colheita que estava por vir. De repente, meus pensamentos foram interrompidos pelo bater das asas de um desengonçado urubu, que voava em direção a um juazeiro fincado próximo do asfalto. Não conseguindo seu intento, a pobre ave se debateu contra os galhos secos e caiu estatelada. Liguei a seta e parei no resto de acostamento. Fui ver como estava o nosso velho conhecido. Ali estava ele, inerte, apesar de ofegante. Suas asas estavam bem abertas, o peito encostado na areia ardente e o bico entreaberto não conseguia segurar a língua que caía desgovernada para um dos lados. Quando me viu, arregimentou forças e tentou levantar vôo. Tudo em vão! Mas ainda lhe restaram energias para sair correndo e parar no asfalto. Morreu atropelado. Um pouco triste, olhei para o céu e não vi outro espécime. Será que o urubu estaria em processo de extinção por falta de carniça? Sem respostas, entrei no carro e segui viagem. Diferentemente do nordestino, que só não é forte para lutar contra a transposição das suas riquezas para as hienas humanas, o urubu é um animal arguto e um dos campeões de longevidade, a qual, minha culpa, fora abreviada. Diminui a velocidade e parei para tomar um pouco d?água numa taberna bem próxima a um povoado escondido pela poeira. Enquanto sorvia a água, ouvi vozes discutindo asperamente. O dono da bodega me disse que era a briga diária pelo lixão. Lixão por aqui?! Fui vê-lo. Vi pessoas esqueléticas brigando para escavacar o lixo fétido na esperança de encontrar restos de comida. Perguntei-me: quem se preocupa com a revitalização da vida sacrificada e efêmera dessa gente? Olhei para todos os lados e, apesar do mau cheiro, não vi uma só alma de urubu. Lógico, seria para ele um iminente risco de vida marcar presença diante de competição deveras estranha e irracional. (*) É contador.

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