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Opinião

A crise e seus desdobramentos

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| Luciano Siqueira * Crises podem ser benéficas, na medida em que dão oportunidade a que contradições e conflitos se exacerbem, pondo a nu o verdadeiro jogo de interesses existente e permitindo que, pela ação consciente dos atores envolvidos, com maior ou menor competência, a situação evolua para uma qualidade nova. Mas podem também se estender em agonia lenta ou ainda darem lugar ao caos. A crise política atual, focada no PT, no Governo e na Câmara dos Deputados tem um nome: luta pelo poder. Para as oposições ? a direita liderada pelo PSDB e pelo PFL, aos quais se associam partidos e facções de partidos que vão do PPS ao P-SOL ? interessa estender a crise até às vésperas do pleito de 2006 e com isso inviabilizar uma hipotética candidatura do presidente Lula à reeleição. Não está fácil, a julgar pelos significativos índices de aprovação e simpatia ainda mantidos pelo governo e pelo presidente nas pesquisas, apesar do fogo cruzado que já dura cinco meses. Como toda luta política, importa aos contendores enfraquecerem seus adversários, mirando, se possível, seu centro nevrálgico: o estado maior, o comando, a direção consciente. Quanto a isso, o estrago não foi pequeno. O núcleo dirigente executivo do PT só agora começa a ser recomposto, concluída a eleição interna, assim mesmo só Deus sabe como. Tudo indica que a unidade e a coesão permanecerão débeis. O governo também perdeu seu estado maior, aquele conjunto de ministros chamado de ?núcleo duro?, que rearticula a duras penas. E a Câmara dos Deputados, que cumpre um papel institucional decisivo, envolta numa agonia que breve completa um ano (entre CPIs barulhentas e poucos produtivas e o curto e esdrúxulo reinado de Severino Cavalcanti), finalmente recupera a sobrevida e começa a reunir condições para tocar uma agenda positiva com a eleição do novo presidente, o deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP). Em certa medida, podemos dizer que a crise chega a um estágio de maturação, em que os fatores contraditórios que a alimentam começam a produzir resultados que não afetam o processo democrático ? ou seja, nem o PT acaba, nem o governo cai e a Câmara volta à normalidade. O caos, tão desejado pelas oposições, não se instalou. Resta verificar se, do lado de cá do front, o PT recuperará condições mínimas de iniciativa, se o governo se tornará mais hábil e eficaz e se a Câmara recolocará na pauta os grandes problemas do interesse do povo e da nação. (*) É médico e vice-prefeito do Recife.

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