Opinião
O simbolismo de um gesto
José Medeiros * Nas últimas semanas esqueci o Iraque e os homens-bomba, a agitação nas CPIs, catástrofes, furacões e a destruição de Nova Orleans, uma cidade de outro país de que mais gosto. Comovido, passei a acompanhar, passo a passo, a greve de fome do bispo Luiz Flávio Cappio, em Cabrobó, às margens do Rio São Francisco. Acreditei na sinceridade do bispo que nos trouxe um alento de esperança. Há vinte anos, durante uma campanha política na Região Norte, conheci um sacerdote da ordem franciscana, dedicado aos pescadores e suas causas, defensor intransigente de seus direitos e opositor tenaz dos intermediários que os oprimiam. Pelos pescadores, fazia sacrifícios ingentes, seu trabalho tornou-se um ideal de vida. Numa das conversas que tive com ele, numa choupana à beira-mar, aprendi a compreender a grandeza de seu espírito e de suas ações nobres. Dizia que ?sem ideal não há nobreza de alma, coesão, desinteresse e bons resultados?. Acreditava, lutava por suas crenças. Vestido numa batina surrada, caminhava ao longo da orla do mar, pregando o evangelho e a justiça social. Fisicamente, era muito parecido com o bispo que fez a greve de fome. Preocupei-me com o bispo, como ser humano, frágil na constituição física, porém, forte em suas convicções. Os interesses da ?transposição? já haviam vencido todas as batalhas. De nada haviam adiantado os protestos, passeatas, discussões, argumentos ou a comprovação de que o rio poderá virar um fio d?água, um riacho. Então, surgiu uma luz no fim do túnel. Com o posicionamento extremo do bispo, capaz de sacrificar sua vida pela vida dos ribeirinhos, reacendeu-se a esperança de que o assunto seja melhor estudado, de que a ?revitalização? seja um fato e não apenas palavras. No simbolismo do gesto, um protesto da indignação. O assunto repercutiu, mobilizou a mídia, uniu pessoas de variadas classes sociais, que torceram e rezaram pela saúde do bispo. Sabe-se, que a partir do décimo dia de jejum, podem aparecer lesões orgânicas, danos celulares de difícil recuperação. Aparentemente, nada aconteceu, para alegria geral. Minhas razões são sentimentais. Nasci à beira desse rio, outrora caudaloso na maior parte de sua extensão. Nessa época, o rio era o caminho natural, a estrada, a rua, o horizonte. A canoa era a montaria. Como disse conhecido escritor: ?Embarcados vinham os noivos, as procissões, os enterros, os negociantes, os trabalhadores, os eleitores, os músicos. O rio comandava a vida dos habitantes da região?. Assim era o rio São Francisco... (*) É médico e ex-secretário de Educação e de Saúde.