Opinião
O homem e o espelho
| Benedito Ramos * Nos dias atuais, o conceito de crença resulta em um ?conjunto de princípios e valores que orientam a atuação de uma pessoa ou organização?. Nos dias atuais, também, o volume de informações, destinadas ao ser humano é maior do que a sua capacidade de processamento mental para produzir conceitos com a mesma rapidez. Mas é, sobretudo, a desconfiança em sua própria espécie que molda as suas crenças que se propagam coletivamente com a sociedade deste século. Se não vivemos o anti-humanismo sistemático, chegamos a um estágio de intolerância mútua nunca visto na história. Vivemos a nossa própria individualidade, não pensamos coletivamente como uma sociedade. Mesmo assim, falamos de ética, moral e responsabilidade social da mesma forma que o pregoeiro vende suas melancias. Para ele não importa se essas não forem doces, basta que a casca tenha boa aparência. Vivemos de aparência. Diz Saint Exupéry: ?Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas?. O Brasil cativou sua população mais miserável, com a idéia de que o País não a deixará morrer de fome. E o povo, na sua singeleza, acredita nisso. Estamos às vésperas de um referendo no qual a nação decidirá sobre a comercialização de armas e munição. Por que precisamos chegar a tanto? Porque esse mesmo governo tenta criar uma ideologia de que com o desarmamento a violência acaba? Todos nós sabemos, perfeitamente, que é a capacidade de articulação entre o bandido e autoridade que tem gerado a violência contra a sociedade. A velha história da casca da melancia com o miolo podre. Não conhecemos os responsáveis pelo nosso destino em um país onde, muitas vezes, o bandido e o homem de bem se confundem. Como humanizar as nossas crenças em uma sociedade que troca seu voto por um emprego, quando não, por uma cesta básica, ou coisa inda menor? É possível pensar coletivamente? É possível mudar a realidade de governos corruptos e corruptores, quando os elegemos sob a égide da mentira? Como podemos falar em ética se nós também não conseguimos praticá-la? O que esperar de um país que vive a mudar suas leis à conveniência do bem-estar de uma minoria já tão privilegiada? Mas esse não é um problema só nosso. No mundo inteiro, a desconfiança na humanidade e nos governos se alastra, seja pelas ações terroristas, seja pela violência, ou mesmo, pelo ocaso do planeta, cuja natureza parece vingar-se do homem. É a própria fé em si mesmo que declina e já não produz crença alguma de amor ao próximo. (*) É crítico de artes.