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Encontro com Satucha

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| Dom F. Iório Rodrigues * Um dos heterônimos de Fernando Pessoa asseverava haver três espécies de pessoas: umas desejavam alcançar o infinito; outras corriam atrás do impossível; outras tantas nada procuravam. De si mesmo, afirmava ele procurar, apenas, o finito, porque somente com as mãos e a cabeça no contingente poderia realizar o impossível. Entretanto, realizar o impossível só o posso, tornando-o possível - quer dizer - tentando revelar pequena parte de tudo quanto sei sobre o todo finito. É de certa maneira notório que jamais dissecaremos a verdade total: estrangulamo-la, fragmentamo-la, sem nunca chegar ao ?maxime scibile? do seu apogeu semântico. A nossa própria verdade que, de certo, bem deveríamos conhecer jamais a revelamos com todas as nuanças possíveis para os outros. Foi assim pensando que encontrei Satucha. - Senhor bispo, desde ontem eu me dispus a abrir, devagar, meu coração para experimentar o amor. - Não o amor de meus pais e irmãos, senão o de Deus. - senti como Deus amava a garotinha assustada que havia dentro de mim, que contava mentiras e criava truques. - Sim, Deus amava a adolescente rebelde, agressiva, orgulhosa e sonhadora que dormia no travesseiro do meu sono. E resolvi, de logo, aceitar a verdade de que Deus me amava, apesar de tanta fraqueza que eu carregava. Satucha continuou feliz: - Descobri, então, que deusa era o sangue que corria em minhas veias, era o bater do meu coração. - Desde aquele momento inicial tudo ficou, por demais claro, transparente: - Deus não me perseguia, não me castigava, mas fortemente me amava, estimulando-me a fazer as melhores escolhas, a tomar as decisões mais acertadas... Continue, Satucha, disse-lhe eu: - Finalmente, Senhor bispo, para mim, ficou bem mais claro que meus olhos, ouvidos, mãos, pés e todo o corpo eram instrumentos de Deus e que minha única função nesta vida era reconhecer-me como instrumento divino capaz de usar minha energia para criar uma vida melhor par mim e par os outros. - Hoje minha alegria maior é sentir-me amada por Deus. De certo, algo maravilhoso ocorre quando alguém atinge a clareza. A clareza lhe dá a capacidade de fazer o que está fazendo da melhor maneira possível. Deus quer que saibamos quem somos, descobrindo aquilo que ainda não somos. Enquanto assim pensava, acrescentou Satucha: - Desde quando tive a clareza de que Deus me amava, nunca mais desesperei, nunca mais fui alguém sem sentido na vida. Agora, sim, sou uma mulher feliz: na paz, eu sei o que quero, concluiu quase sorrindo. (*) É bispo de Palmeira dos Índios.

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