Opinião
Sil�ncio valorizador
| Dom Fernando Iório * Nunca procure falar quando o silêncio falar mais alto do que as palavras. Afiançava Ernesto Helo: ?Nosso século fala demais, chora, grita, desespera... grita tudo em público. Ele que detesta a confissão secreta, revela-se, a cada instante, em confissão pública?. São necessários banhos de silêncio para que se faça calar em nós os gritos de orgulho e de egoísmo que invadem nossas vidas precipitadas e mergulhadas no ruído. Estamos envoltos em coisas que nos arremessam para fora, como afirma Pascal. Bergson descobriu, na própria tecnologia do mundo moderno, a existência de um suplemento espiritual. Assim, o cientista necessita do silêncio para preparar suas experiências, para anotar com cuidado, as condições e os resultados. Recolhe-se o filósofo na solidão para melhor ordenar e penetrar seus pensamentos. Eu, de mim mesmo, descobri que o descalabro da pessoa humana advém de uma única coisa: falar demais, quando o silêncio resolveria melhor. Se o silêncio nos pesa, é porque nos é, terrivelmente, necessário. Não é outra coisa senão o silêncio que dá densidade às palavras que proferimos. Porque nunca procurei o silêncio, diz Anatole France. ?Conheço tudo, menos a mim mesmo?. O silêncio recolhe, recupera e condensa. Quem não sabe colocar em sua vida zonas de silêncio, não tarda a viver fora de si mesmo. Os momentos de silêncio que nos reservamos, embora sejam dolorosos, no início, emprestam ao nosso pensamento nova acuidade, à nossa palavra ressonâncias mais profundas. O silêncio nunca mente. O silêncio confessa. Como a germinação se faz sem o conhecimento do semeador, no segredo das entranhas da Terra, a incubação do pensamento opera-se, inconscientemente, nas profundezas do silêncio. O silêncio é a grande lei da vida sobrenatural, como o é da vida natural. É no silêncio que a seiva sobe, e a árvore germina e frutifica. É silenciosamente que Deus comunica a vida ao nosso ser. É nele que se operam a geração eterna do Verbo e a inspiração do Espírito de Deus. De modo silencioso, efetuam-se na alma as operações da graça no interior do Corpo Místico de Cristo. Deus ama o silêncio: no silêncio, encarnou-se; no silêncio, nasceu; no silêncio, viveu a maior parte de sua passagem sobre a Terra. Seu ministério foi entrecortado por numerosas paradas silenciosas. Inaugurou sua vida de pregador, antecipando-a com 40 dias de silêncio no deserto. Silenciou diante de Pilatos e de Herodes. E na Hóstia Consagrada tornou-se Jesus Cristo silencioso. (*) É bispo de Palmeira dos Índios.