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Opinião

Mistura explosiva

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| Ronald Mendonça * No Rio de Janeiro, a polícia comemorou a morte de Bem-te-vi, capo do tráfico do morro da Rocinha, como um grande feito, fruto da ?inteligência?, setor que se pretende planejador do combate ao crime organizado. De fato, tudo leva a crer que houve uma ação bem articulada, sem vazamento de informações, o que teria permitido surpreender o bandido. Certamente não fará falta. Apesar da posição hierárquica do marginal, suas fotografias sem vida simbolizam apenas um pequeno golpe, talvez a perda de um peão - se compararmos com o jogo de xadrez - muito longe de um xeque-mate. É que com o silêncio de Bem-te-vi há pelo menos uma dezena de novas aves dispostas a assumir o posto. Envolvidos desde a infância no arriscado e incerto submundo do tráfico, ninguém parece estar nem aí para o fato de a média de vida entre eles estar abaixo dos trinta anos. Não se trata de praga nem de sina, é estatística. Graças ao bom Deus, igual destino não costuma marcar os dignos representantes do povo, por mais que eles aprontem. Abençoados por uma vida habitualmente longa, ninguém precisa ser agente fiscal para acompanhar suas transformações. Alimentados por esquemas de toda natureza, poucos meses de mandato já são suficientes para deixar os sujeitos com a elegância de quase lordes, mais gordos, cabelinhos da hora, empáfia de ministros. Notórios pés-rapados, de repente, à boca miúda, fala-se em propriedades de gado, sociedade em prósperas empresas, apartamentos na orla... Na hora H, não existe ?inteligência? que pegue esses caras. Habitantes de um mundo de fantasia onde até o ódio é falso - como dizia Carlos Lacerda - de vez em quando, para ganhar espaços na mídia, expelem arrotos de honestidade e de valentia, como agora, ameaçando dar uma improvável surra no presidente da República, que por sua vez não passa de um blefe monumental. O engenheiro e industrial Paulo Salim Maluf é espécime exemplar dessa fauna. Rico de berço, as inúmeras denúncias de saques dos Maluf aos cofres públicos, as remessas de dólares ao exterior e mil outras estrepolias, são recados claros de que nem só de pés-rapados vive a gatunagem política. Libertado da cadeia por comiseração do STF, que teria se solidarizado com supostas fragilidades intestinais e psíquicas (encenação pura), Maluf desfilou esta semana belo e fagueiro em Campos de Jordão, exibindo saúde de touro reprodutor. Pronto para outra, misturava cerveja com pastel de ovo. (*) É médico e professor da Ufal.

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