Opinião
In�cio de mil�nio
| Dom Fernando Iório * Passa, de certa maneira, o Brasil por vários desafios, resultantes das mutações religiosas, éticas e culturais que caracterizam as dores de parto de uma nova época. Tem-se de remar mar a dentro, lançando as redes nas águas mais profundas em nome de quem tem poder de nos proporcionar a paz. O parto de um novo milênio tem seus tempos de gestação, de espera e de dar à luz. Mas nem tudo é linear. Os sinais do crepúsculo de uma era da humanidade que se findou e do amanhecer de uma nova época que se inicia tornaram-se presentes nas últimas décadas do século que se foi, em meio de lutas ideológicas, raciais e até religiosas que o marcaram. A passagem para o terceiro milênio é o símbolo de uma mudança de época, cuja transição ainda perdura. Cada fenômeno que descobrimos convida-nos a um discernimento capaz de associar-nos à orientação da vontade de Deus que deseja forjar nosso tempo na verdade, na justiça, na contemplação e na paz. Como um primeiro dado dessa mudança de época, descobrimos ter o ser humano penetrado o universo como nunca. Investigando o sistema solar e as galáxias, tomou consciência de sua história e conseguiu entrar pelo passado do macrocosmo. Não poucos cientistas já têm a curiosidade de inquirir sobre sua origem, que não crêem, agora, ser casual, mas provinda da força criadora de um ser dominador e ordenador do cosmo. A vocação contemplativa dos astrônomos leva-os a transcender, com suas interrogações, os limites de sua especialização científica, causando gaudioso assombro suscitado pela contemplação profunda da criação. Assim, desponta o caminho que conduzirá o ser humano ao descobrimento de horizontes de caminhos sempre novos. Na mesma direção contemplativa, também a investigação genética permitiu ao homem conhecer segredos da vida e da identidade dos seres. Nesse âmbito, porém, ao invés de se deter, cheio de espanto, diante de suas conquistas no conhecimento do mistério da natureza e de perguntar por sua origem, apressa-se o ser humano em buscar a utilidade de seus conhecimentos e a intervir, laboriosamente, no microcosmo. Todos - asseguram - querem prestar um melhor serviço à vida. Muitos acariciam a possibilidade de manipular os seres vivos e sua gestação, como nunca antes na história. Alguns, sem refletir na moralidade de suas ações, porquanto não é lícito fazer tudo o que se pode fazer. Para o ser humano perdido na floresta, renasceu a tentação do paraíso: assenhorear-se da árvore da vida. Já o Reino de Deus sofre as dores do parto. (*) É bispo de Palmeira dos Índios.