Opinião
Desdobramentos da aftosa
| Humberto Martins * O surto de aftosa que se iniciou em Mato Grosso do Sul, o maior rebanho do País, está tendo desdobramentos da maior gravidade, externa e internamente. Externamente, o Brasil deixa de exportar enormes quantidades de carne bovina, sendo ameaçado de perder, ao menos provisoriamente, a posição de maior exportador. Internamente, o mercado, pressionado pela carne que deixa de ser negociada para o exterior, deverá cair de preço, sendo seguida pelos similares suínos, ovinos e pela carne de frango. O Brasil é o maior exportador de carne bovina por uma série de motivos. Entre outros motivos: extensão territorial, clima favorável, competência dos fazendeiros e abundância de crédito, esse último item comprometido pelos juros extorsivos que vigoram no País. Também contribui para essa situação, o baixo consumo interno, conseqüência dos salários e aposentadorias irrelevantes recebidos pela maior parte da população. São insignificantes também, no Brasil, o consumo per capita de leite e de outros gêneros de primeira necessidade. Pode-se dizer que o surto de aftosa que atinge o rebanho de Mato Grosso do Sul, MS, e de outros estados é a oportunidade para observar como a globalização alterou visceralmente os procedimentos. Há coisa de duas ou três décadas, quando a aftosa ou outra doença grave atingia uma fazenda, um personagem muito conhecido na zona rural - o ?carniceiro? - era chamado, abatia as reses doentes e utilizava a carne para fabrico ilegal de carne-de-sol e lingüiça. Nessa época, era feito algum tipo de vacinação localizada e pronto. Hoje em dia, um surto de aftosa tem repercussões internacionais, provoca intenso noticiário nos veículos de comunicação e envolve interesses de bilhões de dólares. O fluxo colossal de exportações de carne bovina atrai as atenções dos círculos econômicos internacionais. Estados Unidos e Austrália foram ultrapassados recentemente pelos produtores brasileiros. É provável que o atual surto de aftosa tivesse sido evitado se os recursos para controle sanitário não fossem retidos para atender as recomendações de superávit primário (economia), feitos pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e obedecidos pela equipe econômica. Outra conseqüência da globalização que predomina em todos os setores da vida pública e privada. (*) É desembargador TJ/AL.