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Opinião

A primavera que eu conheci

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| Anilda Leão * Nós, cá das bandas do Nordeste, não conhecemos realmente a primavera, chamada estação das flores, tão bem prevista pelos calendários de plagas mais distantes e de climas mais temperados. Temos por aqui, na mesma época, o chamado vento Nordeste, a nos presentear com uma ventania gostosa, balançando árvores e derrubando frutos maduros, prontos a serem mordiscados ali mesmo, sob a benfazeja sombra das protetoras copas. E que também contribui para amenizar, pelo menos por algum tempo, as altas temperaturas dessa estação, nós que somos tão castigados pelo sol causticante e pela secura ? que continua lá para os lados do sertão, onde a pobreza, a miséria continua a flagelar, sem piedade, aqueles nossos irmãos tão maltratados e esquecidos. Mas, se por aqui a primavera não existe, eu a recrio dentro de mim assim como a conheci em Leningrado, hoje São Petersburgo, na antiga União Soviética. Tempo bonito, cheio de claridade, de perfumes e de cores. Céu limpo, de um azul sem nuvens, sem outros matizes, apenas o azul. Gente bonita, crianças coradas, felizes. Quiosques de flores por cada esquina. Homens sobraçando buquês coloridos, que iriam certamente para os braços das namoradas, das esposas, das mães ou das amantes, sem aquela de que flores e machos não combinam. Parque de diversões com os seus carrosséis e suas crianças. Mulheres e homens, jovens ou não, disputando lugares com os pequenos nos diversos brinquedos do parque. Casais felizes, eles com uma flor saindo do bolso da camisa, elas com guirlandas coloridas prendendo os cabelos claros. Leningrado, assim como sua irmã Viena, cheia de luzes e de sons, romântica e poética. Cidades de sonhos, de alegria, com as quais me identifico! O calendário assinala a primavera e eu a invento aqui mesmo, por essas bandas, relembrando a suavidade, o frescor, o aroma das flores e a beleza das paisagens européias. Em cada esquina, eu crio um quiosque de flores; em cada calçada, invento um café de mesas esparramadas, onde a multidão celebra a vida. O calendário, aqui na região Nordeste, está proclamando que a primavera chegou há mais de um mês, mas na verdade o que temos de diferente é o sol forte, novamente a brilhar plenamente ? passada a temporada de chuvas ? esgueirando-se, cada vez mais, pelas beiradas do buraco da camada de ozônio, produzida pela insensatez dos homens e de seus líderes equivocados. (*) É escritora.

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