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A palavra de Arriete

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| Cláudio Vieira * O título é sugestivo e bem aplicado. Falo do livro A palavra sem âncora, de Arriete Vilela, prestigiada poetisa alagoana. Ainda não havia iniciado a degustação de seus versos, quando ouvi de certo, também, poeta, que os versos da Arriete eram introspectivos demais, composições só inteligíveis à própria. A observação aguçou-me a curiosidade, eu que, na adolescência, tentara, claro que sem sucesso, capengas poemas modernos e sonetos pífios, concluindo que, definitivamente, não seria aquele o meu ramo. Arriete não me surpreendeu, mas seus excelentes versos contrariam a opinião crítica por mim ouvida. Claro que, mulher sensível, seus poemas têm introspecção; todavia, na medida certa a penetrar-nos a alma. Por outro lado, compreendo o cáustico crítico de Arriete, pois, só através da sensibilidade a sua poesia será compreendida. Aliás, afirmar isso é produzir lugar comum, porquanto a compreensão de bons poemas se dá pela absorção do mais íntimo sentimento do poeta, uma relação simbiôntica. ?A palavra/cria, subverte e celebra/seus simbolismos/suas metáforas/seus confrontos/fracassos/fronteiras/pelo gosto de transgredir-se/de denunciar-se/-ora por ser delito na tradição/-ora por ser delírio no esplendor.?, filósofa a poetisa, de maneira simples e elegante. E o que diz, penso eu, não será a pura verdade? Proclamou, outrora, Fernando Pessoa que ?o poeta é um fingidor/finge tão completamente/ que chega a fingir que é dor/ a dor que deveras sente?. Arriete diz o que ?deveras sente?, à sua maneira quieta/irrequieta, a mulher revelando seus sentimentos, ora com parcimônia, às vezes com urgência e sofreguidão. Guarda segredos; revela-os também. Diz o que quer, sem peias ou âncora, pois a palavra existe para ser livremente manejada, fazendo desabrochar os pensamentos mais íntimos, quanto mais os superficiais. Tudo está ali, nos seus poemas. É só ler com os interiores olhos da alma. Não são versos para rir. Menos ainda para fazer chorar. São apenas versos de sensibilidade incomum, capazes de conduzir-nos ao nosso âmago, fazer-nos refletir, pois ?Entre uma margem e outra/ da palavra,/há milhares de flechas/disparadas nas asas/do beija-flor parado no ar;/entre uma margem e outra/da palavra,/há o tempo a detalhar-se em sulcos,/sobre o rosto musical/da antiga infância?. Não se desnuda, revela-se, desvela-se, aí, a Arriete menina, a menina mulher? Pois não é verdade que em toda menina há uma mulher e em toda mulher a menina que outrora foi? (*) É advogado militante.

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