Opinião
A derrota de todos
| RONALD MENDONÇA * Não têm sido refresco as noites em muitas cidades da França. Berço de uma revolução que exaltava a liberdade, a fraternidade e a igualdade, influenciando todas as gerações sucedâneas, qualquer conflito em território francês desperta interesse e preocupação. Há duas semanas, vivendo clima de inferno na sua periferia, quando milhares de automóveis são diariamente incendiados, a baderna na França parece ter andado fora de controle. É claro que os atuais descontentes estão longe de jacobinos e girondinos. Com efeito, que ninguém espere desses paroxismos uma nova derrubada da Bastilha. Dali não sairá nenhum Danton ou Robespierre. Patrocinadas por descendentes de imigrantes, os revoltosos de hoje não lutam por um novo regime. Excessos à parte, de fato, suportar a discriminação dos franceses ?natos? é um fardo muito pesado. Historicamente vocacionada para a vanguarda das conquistas sociais, por mais complicado e irônico que pareça o momento atual, certamente a França retornará aos trilhos. Muito mais sombria é a situação da bandidagem do Brasil. Detentor de colossais abismos sociais, o País equilibra-se milagrosamente graças a uma classe média acomodada. Cansada de ser saqueada por sucessivos governos, há 3 anos a população apostou numa mudança que acenava com honestidade e competência. Infelizmente, o governo do inculto Lula e seu partido enfiaram a pátria numa crise moral sem precedentes. Se já não bastasse a exclusão social crônica - por si só combustível da violência, a falência da ética no comando da nação estimula a transgressão à lei. O raciocínio é simples: se uma criança vê o pai arrotando e deructando à mesa; fumando e bebendo; roubando, matando... Que compromisso teria ela em privar-se dessas coisas? Portanto, diante de um governo raso em bons exemplos, não é por acaso a escalada de ações marginais gerenciadas por quem não passa fome. São os casos específicos dos roubos a bancos e dos seqüestros. Em Alagoas, onde a segurança pública é qualquer coisa de calamitosa (alô, governador; alô, alô, prefeito) a onda de seqüestros virou moda. Pior do que isso, virou um terror. Sem segurança (e com fama de ter dinheiro), ironicamente a classe média tem sido o alvo preferencial desses bandidos, pagando por uma conta que não consumiu. (*) É médico e professor da Ufal.