Opinião
Hidras de lerna
| Ronald Mendonça * A serpente de sete cabeças era um monstro terrível que habitava os pântanos de Lerna. Coube a Herácles - mais conhecido como Hércules - a tarefa de tentar livrar a humanidade dessa desagradável convivência, cujas maldades emanavam de suas numerosas cabeças. Figura mitológica, para completar a virulência da Hidra de Lerna, cada vez que se decepava uma cabeça duas novas nasciam, substituindo a original. Astuto e detentor de força física descomunal, nosso herói deu conta do recado, sepultando o que sobrou da fera. Hércules não sobreviveu o bastante para ver que a serpente, que lhe custara tanto trabalho, livrou-se das profundezas, ganhou alma nova, multiplicou-se, voltando a conviver entre nós. Com efeito, disfarçadas, as serpentes deixaram os pântanos para, às vezes, ocupar posições diferenciadas. No Brasil, por exemplo, o povo cortou a cabeça de Fernando Henrique Cardoso & Cia. Do coto, surgiram Luiz Inácio Lula da Silva, Zé Dirceu, Genoino, ?nosso? Delúbio, Valério, Silvinho et caterva. Fenômeno semelhante repetiu-se recentemente com a morte de Bem-te-vi, poderoso elemento do tráfico nos morros do Rio de Janeiro. Ainda na fase de comemorações da polícia, já dois pretendentes se digladiavam pela vaga do chefe, enquanto outros tantos ficavam de olho. Não é diferente no mundo do terrorismo. Quantas vezes o leitor ouviu dizer que o ?número 1?, ou o ?número 2?, da facção tal teria sido assassinado, sem que, no entanto, disso resulte numa trégua, parecendo até que os atentados proliferam-se. Os alagoanos estão cansados de ver as pegadas da Hidra de Lerna. Há seis anos, para roubar, um bandido assassinou covardemente dois dos meus filhos. Com a retaguarda de uma receptadora, uma certa Olímpia, os crimes provocaram comoção pública. O criminoso foi condenado a 31 anos de reclusão. Beneficiado por filigrana jurídica na formulação da sentença, sua saída antecipada é tida como uma questão de aritmética. Sob o manto protetor das penas abrandadas, ou da impunidade mesmo, há poucos dias a bárbara morte do universitário Guilherme Cabral voltou a comover a comunidade. A ocultação do corpo do jovem foi um perverso ingrediente adicional. Assim como no enredo dos crimes dos meus filhos, há também um receptador no do Guilherme, um João das quantas, dono de um lava-jato. Olímpia e ?João Lava-jato? são cabeças da mesma serpente. (*) É médico e professor da Ufal.