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Nº 5713
Opinião

O espantalho

DOM FERNANDO IÓRIO * Ser bom. O importante é realizar, sem demora, aquele gesto concreto de bondade nas necessidades dos outros, após a prática da justiça. A sociedade seria muito melhor se, a cada manhã, pudéssemos dizer: que poderei eu fazer de bom e h

Por | Edição do dia 14/05/2002 - Matéria atualizada em 14/05/2002 às 00h00

DOM FERNANDO IÓRIO * Ser bom. O importante é realizar, sem demora, aquele gesto concreto de bondade nas necessidades dos outros, após a prática da justiça. A sociedade seria muito melhor se, a cada manhã, pudéssemos dizer: que poderei eu fazer de bom e honesto em favor dos semelhantes? Nada há que preencha tanto o nosso ser quanto a decisão de fazer algo positivo nas necessidades dos outros. Poderá ser, hoje, um gesto heróico, mas, em geral, são pequenas atitudes de cortesia, de ajuda e de amor. O importante é partilhar e partilhar-se, é oferecer e oferecer-se. Não concordo com a dúvida de Shakespeare a respeito da existência da bondade. A bondade existe nos seres humanos como sussurro cálido e sereno de exuberante voz amiga sempre pronta a conceder-nos a segurança e a paz de que necessitamos, como mão que se estende para oferecer o pão de cada dia, como compreensão das fraquezas humanas, como esperança nos momentos de desenganos e de angústia. Havia, num povoado, rico lavrador, por demais avarento. Tanta era sua avareza que se tornava furioso quando um passarinho comesse apenas um grão de trigo de sua horta. Teve um dia brilhante idéia: “Já  sei, vou fazer um espantalho. Somente assim afastarei os animais da minha horta. Tomou três bambus, fazendo com eles as pernas e os braços,  formando o corpo. Uma abóbora serviu de cabeça, dois grãos de milho constituíram os olhos; no lugar  do nariz colocou uma cenoura e no da boca uma fileira de grãos de trigo. Vestiu o espantalho com roupas  velhas e feias e, com forte golpe, fincou-o no chão. Mas, de logo, se deu conta de que ao espantalho lhe faltava o coração e tomou o melhor fruto da pereira, cravou-o por entre a palha e se foi para casa. Lá ficou o espantalho bailando ao soprar do vento. De repente, voou um pardal sobre a horta, à procura de grãos de trigo. Tentou o espantalho afugentá-lo; o pássaro, entretanto, por sobre o galho da árvore, suplicou: “Deixe que eu colha alguns trigos para meus filhotes”. “Não posso”, respondeu o espantalho. Mas teve tamanha pena do pobre pardal, que disse: “Pode tomar meus dentes que são de trigo”. O pardal tomou-os, e, alegre, beijou a testa de abóbora. O espantalho ficou sem dentes, mas feliz pela boa obra praticada. Foi a vez de rápido coelho à procura de cenoura. “Deixe que eu leve uma cenoura, pois estou com fome. Diante do coelhinho faminto, ofereceu-lhe o espantalho o nariz feito de cenoura. Sem nariz para sentir o perfume das flores; mesmo assim, estava feliz. Na seqüência apareceu o galo faminto: “Espantalho, o dono da horta me mata de fome”. “Isso não é direito, vou dar-lhe os meus olhos que são de milho. E lá se foi o galo agradecido. Logo após, alguém se aproximou: “Espantalho, o lavrador me expulsou de sua porta. Sou mendigo, nada tenho”. “Tome a minha roupa; é o que tenho de agasalho, respondeu o espantalho”. Agora, é um choro de criança, à procura de comida para a mãe faminta. O dono da horta negava-lhe comida. “Tome, dou-lhe minha cabeça, que é uma imensa abóbora”. Quando o dono foi até a horta encontrou o espantalho naquele deprimente estado, ateou fogo no que restava. Foi quando no chão caiu algo que ainda restava do fantoche: seu coração de pêra. Entre gargalhadas, o patrão dispôs-se a comer a pêra. Devorou-a e, de logo,  completa mudança operou-se nele: o espantalho comunicara-lhe sua bondade para sempre. Convertido em cinzas e fumaça chegava o espantalho até o sol, transformando-se em algum de seus raios. Falamos demais em justiça, mas não abrimos o coração para as necessidades dos outros. (*) É BISPO DE PALMEIRA DOS ÍNDIOS

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