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Lembran�as da juventude

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| José Medeiros * ?Quando partimos no vigor dos anos, / Da vida pela estrada florescente, / As esperanças vão conosco à frente, / Vão ficando atrás os desenganos!.../ Eu e o Rui, meu irmão, recitávamos esses versos do padre Antonio Thomaz, na nossa adolescência e na juventude. Esperanças e bom astral eram a tônica de nossos entusiasmos juvenis. Se a juventude não é apenas uma fase de vida, e sim, um estado de espírito tangido pelo sabor da aventura e da vontade de vencer, nós estávamos certos quando cultivávamos expectativas positivas de futuro. Na época, estudante de medicina, eu estagiava todos os anos em clínicas do Rio de Janeiro. A par da ânsia de obter novos conhecimentos, havia um outro motivo: meu irmão estudava na Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil e, juntos, participávamos de movimentos estudantis. Ele morava na Casa do Estudante de Direito, e havia sempre uma vaga para o irmão recém-chegado da província. Alimentação farta, gratuidade garantida no bandejão da Faculdade. Dinheiro curto: as despesas eram um corpo grande numa roupa pequena dos ganhos recebidos. Com a alimentação da semana garantida, o problema era o fim de semana, às próprias custas. Aos sábados, macarronada suculenta e barata, na Spaguetolândia; aos domingos, um cozido na quitanda da esquina. Eu lembrava sempre ao meu irmão que vínhamos de uma tradição caseira: comer galinha ao molho-pardo, ou galinha guisada, todos os domingos! Por que não procurar uma panelada dessas? Encontramos esse prato num boteco oriental, na boca do túnel do Leme. Na trajetória do tempo os anos passam rápidos e escorregadios. Passados uns tantos verões, desde essa fase de vida, recebo de meu irmão um recorte de jornal em que o articulista fala de uma ?galinha tite?! ?Tite?? O texto dizia: ?O senhor Salun, dono do restaurante, faz as compras da semana todo domingo na feira popular do bairro. O refugo é vendido a preço de banana. Os frangos e galinhas são trazidos em engradados, machucam-se na viagem e alguns chegam à feira morre-não-morre. O senhor Salun, sabendo disso, vai logo perguntando para os feirantes: Tem galinha ?tite?? Tem galinha ?tite?? E assim compra tudo o que é de galinha ?triste? que encontra na feira?. (Triste, era o que ele queria dizer!). Seria o mesmo restaurante? Pensando nas domingueiras do passado essa história poderia embrulhar-me o estômago. Todavia, as lembranças da juventude são sagradas e só me trazem alegrias. (*) É médico e ex-secretário de Educação e de Saúde.

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