Opinião
Eles, os filhos do meio
| Pedro de Menezes Filho * O que busco descrever aqui é fruto de uma experiência de vida, fundamentada na observação minuciosa do convívio com amigos de diversas classes sociais, com um número variável de três a quatro filhos. Trato, naturalmente, do amor que os pais têm por seus filhos e de como ocorre, ao longo dos anos, uma proteção educacional diferenciada à medida que a prole vai aumentando. Não se trata de um trabalho de psicologia educacional, mas a constatação empírica de uma realidade que hoje julgo praticamente inquestionável. Normalmente, em se tratando de uma família de classe média, o primeiro filho é merecedor de todos os mimos e é matriculado, em geral, em uma escola privada e de reconhecimento inabalável, recebe os melhores mimos e todas as atenções, diminuindo mesmo até a afeição que outrora o casal dedicava um ao outro. O primeiro filho é fonte de todo o carinho. O segundo filho representa o arrefecimento dessa dedicação atribuída ao primogênito, pois a grande surpresa e o hábito educacional passaram a ser uma realidade vivenciada, e o casal apresenta um maior nível de maturidade. O segundo filho recebe o golpe, pois a sua proteção é diferenciada. O fato de estudar em uma escola privada não representa mais, para os pais, uma necessidade educacional indispensável. O segundo filho, então, vai estudar em uma escola pública por diferentes pretextos paternos. Entre eles, a necessidade de uma contenção orçamentária. Os carinhos escasseiam, os brinquedos já não fazem parte do contexto educacional: ?Olhe os brinquedos que temos do nosso primeiro filho ainda servem, para que mais??. O terceiro filho, aqui para fruto de nossa análise, o ?ponta de rama?. Esse é um privilegiado: estuda na melhor escola entre todos. A partir desse ponto, a família começa a passar por mudanças consideráveis e irreversíveis. Iniciam-se as desavenças educacionais entre os pais, entre os pais e os filhos e entre os filhos, estes em busca de um maior espaço do amor paterno. Sim, pois todos eles consideram-se igualmente discriminados. Nenhum se acha como sendo o favorito e todos caem em uma disputa sem fim. Começam a perceber uma distinção afetuosa e nisso todos têm razão. O problema é que é sempre o outro que recebe o privilégio. Como resposta, uma vez explicitado o conflito, os pais endurecem o seu relacionamento. Nesse redirecionamento educacional, destaca-se novamente o filho do meio. Destaca-se negativamente, claro. É o que mais apanha, pois ele representa apenas uma espécie de ponte entre seus irmãos. Só é percebido pelo que pode representar pelo seu poder de causar incômodo, mal-estar. O mais velho goza de uma posição privilegiada que nem sempre é fundamentada em critérios justos: sua inteligência é superior, é o sucessor do legado familiar no que ele tem de melhor: é o herdeiro por excelência. O arauto, o porta-voz dos anseios da família. Os pais alegam, como sentença inimputável: sigam o exemplo do seu irmão mais velho! O ?ponta de rama? também é considerado, às vezes, com a mesma intensidade. Mas, coitado, o filho do meio não passa de um intermediário entre duas experiências de dedicação e zelo. (*) É aluno de marketing da FAL.