Opinião
Cultura, apesar de tudo
| Ronald Mendonça * Embora todos saibam que presídio não é um mosteiro de budistas, nem espaço para conclave de doces irmãs de caridade, a bagaceira está além da conta, uma vez que já ultrapassa de uma dezena de motins nos últimos 30 dias. Para muita gente, pouco importa se os bandidos ficam se comendo, degolando-se mutuamente, bebendo o sangue uns dos outros. O que preocupa de verdade são as fugas, que espalham o terror na cidade. Função precípua do governo, a ele cabe arregaçar as mangas e encontrar os meios para manter a disciplina. Em relação às penas, algumas reflexões. Até hoje é insondável enigma o fato de alguns juízes estufarem o peito para dizer que condenaram um bandido a 30, 40 anos de prisão, quando eles próprios sabem que o malfeitor (se não fugir antes) só vai cumprir um sexto do tempo. Agora a ordem é pôr em liberdade o maior número possível de condenados. Seria bom que antes alguém avisasse à Justiça que extramuros há familiares das vítimas que se sentem, além de revoltados e ultrajados por essas saídas extemporâneas, ameaçados na sua integridade física. Mas nem tudo é desmantelo na terra dos memoriais. Há, por exemplo, justificável entusiasmo pela construção do Centro de Convenções e pelo funcionamento do novo aeroporto. Afinal, são velhos sonhos coletivos que se materializaram. Com a Bienal do livro - e mesmo fora dela - foi possível ter uma idéia da extensão e da qualidade da nossa criação literária. Autores do quilate de Arriete Vilela, Enaura Quixabeira, Carlito Lima, Denis Melo e tantos outros encheram as medidas. Na venerável Academia Alagoana de Letras, o advogado e professor de direito José Moura Rocha reverenciou a figura liberal democrata do jurista Aliomar Baleeiro. ?Gauchiste? de carteirinha, com vigorosas braçadas para a margem direita, Moura contribuiu de forma significativa para diluir preconceitos. O criminalista Cláudio Vieira repete o sucesso de o Terceiro tiro, sua primeira ficção. Com Mar vermelho, trama policial bem ancorada, hipnotiza a atenção do leitor da primeira à última onda. Lançado esta semana na feudal Casa da Palavra, Cláudio teve a oportuna iniciativa de homenagear Aloysio Américo Galvão, uma das personalidade mais notáveis do magistério e da magistratura alagoanos. Decano latinista, neste sábado o professor Aloysio estará dando férias do já tradicional ?Latim aos sábados na Academia?. Ano que vem, retornamos mordendo a corda. (*) É médico e professor da Ufal.