Opinião
Poderia ter sido, e n�o foi
| LUCIANO SIQUEIRA * Num dos seus mais belos poemas, Manuel Bandeira queixa-se de um grande amor que poderia ter sido mas não foi. O personagem de Gabriel García Márquez em seu mais recente livro, Memória de minhas putas tristes, diz ter sentido na garganta o nó górdio de todos os amores que puderam ter sido e que não foram. Aos dois anos e oito meses do seu governo, o presidente Lula, apesar das reiteradas declarações em contrário, deve se sentir frustrado pelo grande governo que poderia realizar e não está conseguindo. É certo que o governo tem muito que comemorar, cotejados os êxitos e os insucessos (inclusive a tormenta que se arrasta por mais de seis meses e deve seguir até meados do semestre vindouro som o impulso das CPIs). Promoveu a retomada do desenvolvimento em 2004, elevando a 4,9% do PIB anual, com expressiva ampliação dos postos de trabalho e a obtenção de um superávit comercial sem precedentes no período recente. Deteve a seqüência de privatizações de empresas estatais de importância estratégica; conseguiu paralisar as negociações para a implantação da Alca, como parte de uma política externa independente e altiva; deu passos no sentido do fortalecimento do Estado como indutor do desenvolvimento econômico e social, redirecionando a linha de atuação do BNDES e redefinindo o modelo energético. O Bolsa-Família se consolida como amplo e bem-sucedido esforço de transferência de renda. Porém tais conquistas e iniciativas ainda se mostram insuficientes para atender a enorme demanda social herdada dos governos neoliberais. Por isso, em muitos setores da sociedade de matiz progressista viceja a esperança de que o presidente finalmente supere a indecisão diante do desafio de inverter a equação restrição fiscal versus desamarragem do desenvolvimento. A decisão do Copom de reduzir a taxa básica de juros em 0,5 ponto porcentual, de 19% para 18,5% ao ano, é um bom sinal. Mas, na contratendência dessa possibilidade, o ministro Palocci, segundo se noticia desde a última terça-feira, estaria condicionando sua permanência no governo à garantia de continuidade do aperto fiscal. Ou seja: fica para manter tudo como está. Uma exigência que o presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva não pode aceitar, sob pena de, à Bandeira e García Márquez, continuar lamentando o abortamento de um grande projeto de desenvolvimento nacional que precisa ser e não estará sendo. (*) É vice-prefeito do Recife.