Opinião
Tijolos com a��car
| Ronald Mendonça * Estudiosos da obra do escritor espanhol Miguel Cervantes costumam afirmar que Dom Quixote de la Mancha, sua obra prima, é uma crítica às novelas de cavalaria, literatura muito em voga na época de Cervantes. Com efeito, Dom Quixote, de tanto ler os tais folhetos, teria desorganizado sua estrutura psíquica confundindo a própria identidade (seu nome ?verdadeiro? era outro), passando a viver uma realidade própria, nem sempre gloriosa. O ?Cavaleiro da Triste Figura? não é o primeiro nem será o último personagem a sofrer as influências dos livros. A tragédia de Madame Bovary, de Flaubert, é outro exemplo clássico de como as ?más? leituras podem dar um nó na cabeça de uma criatura. A ironia é quando o próprio autor atrapalha-se com suas criações. Foi o que aconteceu com o escritor de histórias infantis (desconhecido até então) Yves Hublet, que teria confundido o deputado Zé Dirceu com um personagem de caráter duvidoso de um dos seus livros, um certo ?Tristão?. Por conta disso, teria brandido sua bengala em direção ao deputado, em plenos corredores da câmara, justo na véspera de sua cassação. Graças a Deus, os brasileiros podem ficar tranqüilos, pois jamais nosso presidente Lula será vítima dessas crises nervosas. Inimigo assumido de qualquer tipo de leitura, estão descartadas todas as possibilidades de Luiz Inácio, influenciado por romances, colocar um elmo e sair por aí montado num pangaré a aplicar golpes de lança em prosaicos moinhos de vento. Embora tudo seja possível, as evidências indicam também que não é pretensão presidencial publicar livros e/ou pleitear a imortalidade como membro da Academia Brasileira de Letras. Dirceu tem outras histórias. Há alguns anos, candidato em São Paulo a qualquer coisa, os bravos militantes do PT agrediram com tijoladas o então governador Mário Covas. Com fama de mal-humorado, Covas não se deixava intimidar pela gritaria e discutia de peito aberto com populares. Nem por isso merecia a agressão gratuita. Naquela ocasião, o valente Zé Dirceu estarreceria a nação ao subir num palanque, gritando para quem quisesse ouvir que era para ser daquele jeito: ?O adversário era para apanhar nas ruas e nas urnas?. Nessa quarta-feira defendendo seu mandato, Zé fez o que pôde. Em momento de comovente humildade, surpreendeu negando ser stalinista. Ora, ora, que exagero de modéstia, seu Dirceu! Que cerimônia é essa? O senhor é o próprio Stalin temperado pelo açúcar de Fidel. Os três se merecem. (*) É médico e professor da Ufal.