Opinião
As boas coisas da vida
| Marcos Davi Melo * Com tanta notícia ruim na praça: retorno de Fernandinho Beira-mar para Maceió; crise no sistema presidiário; briga de Palocci e Dilma Rousseff; greve interminável nas universidades; barbárie e incêndio de ônibus no Rio; dinheiro sobrando nos ministérios enquanto a saúde pública continua miserável; queda do PIB no trimestre; aumento da longevidade no País, mas a menor em Alagoas; sinto saudade de outros tempos em que às utopias existiam. Daqueles tempos do mestre Rubem Braga. Podem dizer que é mecanismo de evasão, mas a crônica transcrita aqui é ?As boas coisas da vida?, lá ele citava uma revista que tinha pedido a várias pessoas para dizer ?as dez coisas que fazem a vida valer a pena?. Eis na visão do mestre capixaba a lista: Esbarrar, às vezes, com certas comidas da infância, por exemplo: aipim cozido, ainda quente, com melado de cana que vem numa garrafa cuja rolha é um sabugo de milho. O sabugo dará um certo gosto ao melado? Dá: gosto de infância, de tarde na fazenda. - Tomar um banho excelente num bom hotel, vestir uma roupa confortável e sair pela primeira vez pelas ruas de uma cidade estranha, achando que ali vão acontecer coisas surpreendentes e lindas. E acontecerem. Quando você vai andando por um lugar e há um bate-bola, sentir que a bola vem para seu lado e, de repente, dar um chute perfeito - e ser aplaudido pelos serventes de pedreiro. Ler pela primeira vez um poema realmente bom ou um pedaço de prosa, daqueles que dão inveja na gente e vontade de reler. - Aquele momento em que você sente que de um velho amor ficou uma grande amizade - ou que uma grande amizade está virando, de repente, amor. Sentir que você deixou de gostar de uma mulher que, afinal, para você, era apenas aflição de espírito e frustração da carne a mulher que não te deu e não te dá, essa amaldiçoada. Viajar, partir. Voltar. Quando se vive na Europa, voltar para Paris: quando se vive no Brasil voltar para o Rio. Pensar que, por pior que estejam às coisas, há sempre uma solução, a morte assim chamado descanso eterno. E, eu por minha conta e como qualquer um, vou acrescentar mais uma nessa lista do Braga: ver a cassação de Zé Dirceu não com alegria, mas com tristeza, lembrando dos tempos em que tínhamos ilusões e utopias e acreditávamos na redenção do homem pelo homem. Achar graça da nossa ingenuidade, mas ter saudade dela e dos tempos em que eles eram apenas uns barbudos destemidos, revolucionários, mas honestos. (*) É médico.