Opinião
Teologia po�tica
| DOM FERNANDO IÓRIO * Sempre que tenho oportunidade, venho falando, em encontros de sacerdotes ou mesmo de irmãos bispos, no tocante à Teologia Poética. Trata-se daquela Teologia que assume, com vigor, uma visão da salvação cristã encarnada configurada num dado texto literário. Se a dinâmica salvífica do Cristianismo é encarnatória, se o evento Cristo abarca todo o cosmos e toda a história, se a Graça atua desde as raízes mais recônditas do ser humano, cabe à Teologia, no diálogo com a Literatura, a tarefa de reconhecer e resgatar os sinais dessa presença misteriosa na estrutura frásica ou poética da forma literária. Jesus, sempre por sempre, apresentou o Reino dos Céus de uma maneira poética, usando parábolas ou falando dos lírios do campo ou dos remígios dos passarinhos... Não deixa de ser significativo o fato de que tenha Jesus plasmado sua idéia do Reino em imagens e figuras. Sua imagética era rural, bem adaptada ao povo. A Eclesiologia do Novo Testamento é, essencialmente, parabólica, vale dizer - poética. Recorda-nos ser a Igreja um mistério irredutível à racionalidade puramente histórica e sociológica. Com efeito, o mistério expressa-se melhor em imagens, comparações e metáforas. Traz-nos, ainda, à lembrança a verdade de que a melhor Teologia não é incompatível com a poesia. Ao contrário, a melhor Teologia bíblica e patrística está repleta de imagens e figuras poéticas, ao estilo de Jesus Cristo que, repetidas vezes, usou a metalinguagem na explicação de suas parábolas. Não há de negar: os grandes místicos e teólogos sempre foram grandes poetas, assim São João da Cruz, Santa Tereza de Jesus... E que dizer de Santo Tomás de Aquino, o gênio da Teologia, no seu poetar altaneiro ante o mistério da Eucaristia?... Por que o grande teólogo sempre é um poeta? Talvez porque a alma da Teologia é a fé que sempre é mais misteriosa e intuitiva do que racional. É essa fé poetizada nos textos literários, que torna os contemplativos e os místicos, poetas de Deus, os reveladores mais íntimos do mistério da Igreja. A essa altura, podemos afirmar que o caminho da Teologia Poética seja a superação do racionalismo teológico e eclesiológico dos últimos séculos. Bernardo Soares, um dos heterônimos de Fernando Pessoa, afirma-nos, no livro do Desassossego, que a melhor maneira de evitar os contratempos do mundo é imitar os místicos, buscando, na intuição poética, a Revelação que assume uma forma estética se transformando em arte. (*) É bispo de Palmeira dos Índios.