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Opinião

O anjo pornogr�fico

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| EDUARDO BOMFIM * Nestes meses, ouvi e li várias entrevistas sobre a vida e obra do cronista, dramaturgo, Nelson Rodrigues. Reli a biografia do jornalista Ruy Castro, O anjo pornográfico, relativa à vida do polêmico analista do cotidiano e das almas. O biógrafo afirma que o teatro não foi o palco principal de Nelson. Acha mesmo que talvez nunca tenha sido. Esse, se houve, foi o jornal. Principalmente as ruas, onde caçava as tragédias, as perplexidades, os demônios que habitam os seus personagens. Da vida suburbana à grã-fina da zona sul do Rio de Janeiro. Possuía pânico a qualquer tipo de viagem que o afastasse do seu laboratório humano, a cidade maravilhosa. Declarava sentir uma saudade horrível da antiga capital, quando chegava ao bairro de Bonsucesso. Nelson Rodrigues, execrado pela esquerda como legítimo reacionário, pela direita, como tarado irrecuperável com as suas peças desnudando o falso-moralismo. Na realidade, ele resolveu demarcar sua própria fronteira, protegendo-se dos lugares comuns ou não, em que a luta feroz contra a ditadura dividia os intelectuais, militantes ou os boêmios com abastada renda, à procura de uma causa pelas noites do Rio. Cidade que é um verdadeiro caleidoscópio humano. Sua vida, carregada de tragédias pessoais. O assassinato do jovem irmão Roberto, em plena redação do jornal. O que levou à morte prematura do pai, proprietário da empresa jornalística. Uma sucessão de fatos dramáticos até o último suspiro. A maioria dos cariocas não era do Rio. Ele era pernambucano. Havia a geração de cronistas mineiros, Drummond, Otto Lara Rezende, Paulo Mendes Campos, Rubens Fonseca, Fernando Sabino. O alagoano Graciliano Ramos, o piauiense Carlos Castelo Branco. José Lins do Rego, o psicanalista de esquerda Hélio Pellegrino etc. O Rio povoado de cariocas de outras terras. Não sem razão escreveu o ex-presidente do BNDES, Carlos Lessa, patriota, progressista, O Rio de todos os Brasis. Já Nelson, amargou durante anos o limbo. Reconheceram sua produção. O teor psicológico, narrativo, brasileiro, universal da sua obra. Pellegrino, classificou-o de ?o reacionário mais revolucionário que conhecera?. O ministro do STF Nelson Jobim, lembrou uma de suas célebres frases, na sessão que julgou recurso do ex-deputado José Dirceu: ?Os idiotas perderam a modéstia?. O sentido da afirmação ficou ambíguo. Mas o Nelson Rodrigues permanece atual, implacável. (*) É advogado e secretário estadual de Cultura.

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