Opinião
Greve das federais: professores e chefs de cuisine
| IZABEL BRANDÃO * Desde 1980 que os professores das universidades federais fazem greves. E as reivindicações sistematicamente têm se mantido as mesmas. O que tem mudado são os governos, mas suas respostas continuam insatisfatórias. O governo agora é o que nos prometeu uma educação decente... que foi pelo ralo..., da mesma forma que transformou a negociação em um canal fechado. Se uma analogia é possível, gostaria de comparar dois profissionais: o professor e o chef de cuisine, ambos qualificados em último grau. A analogia é covarde porque a categoria de professor universitário perde na comparação salarial: um chef de cuisine de um hotel cinco estrelas ganha bem mais do que um professor doutor das nossas instituições federais. Chefs podem ganhar até quinze mil reais de salário, dependendo de sua experiência. Já o professor que fez doutorado vai amargar o salário base de pouco mais de mil reais. O que está errado nessa conta não é que um bom chef não possa receber um ótimo salário. Ele se qualificou para tal. O professor também. Mas o professor ganha mal. E está em greve. E o governo não quer negociar. Do professor em início da carreira ao professor titular, há uma desproporcionalidade financeira sem precedentes. Como entender que alguém fez um doutorado, defendeu uma tese, leciona, orienta e faz pesquisa, tem um salário base, sem gratificações, de pouco mais de mil reais? Como compreender que aquele que está em início de carreira receba em torno dois salários mínimos? No caso da greve das federais, estamos agora, ao que tudo indica, num beco sem saída. O governo fechou a porta da negociação. Constata-se a impossibilidade de uma resposta concreta democraticamente negociada. Enquanto isso, alunos e professores continuam fora das salas de aulas. A greve, infelizmente, está se tornando um lamento sem resposta. Como aquela historinha do menino e o lobo, em que o menino brincava de gritar por socorro dizendo: ?É o lobo! É o lobo!? E como não havia lobo, quem vinha socorrer, perdia a viagem. Até que um dia o lobo efetivamente veio e o menino gritou em vão, porque ninguém veio ao seu socorro. O grito ?É o lobo!? havia perdido totalmente o seu sentido. Parece que a greve também. Talvez nos reste uma possibilidade: uma requalificação para pleitearmos o cargo de chefs em algum hotel por aí. O difícil vai ser convencer que somos todos tão bons cozinheiros quanto professores formados para o magistério. (*) É professora da Ufal.