Opinião
O pre�o da reciclagem
| HUMBERTO MARTINS * Pessoas remexendo em depósitos de lixo ou catando objetos e materiais jogados fora pelos que deles não mais necessitam eram uma raridade há três décadas. À medida que a população brasileira empobreceu, em que rarearam as oportunidades de trabalho, essa atividade passou a ser opção de milhares de indivíduos. Em Maceió, para citar o exemplo da cidade onde vivemos, principalmente à noite, é preciso a quem dirige um veículo motor todo o cuidado para não abalroar as incontáveis carroças de tração humana que trafegam, conduzidas por pessoas que procuram restos de madeira, latas, plásticos, vidros e outros materiais que são recolhidos e posteriormente vendidos em numerosos depósitos. O tráfego habitual de caminhões carregados de materiais recicláveis dá bem uma idéia da dimensão que essa atividade econômica alternativa alcança. A falta de treinamento dos que apelam para essa opção como estratégia de sobrevivência faz, entretanto, com que apenas 10,4% do plástico, do papel, do papelão, do vidro e do metal jogados fora sejam efetivamente aproveitados pelas indústrias. Reincorporar materiais ao processo produtivo significa usar menos bauxita para fabricar alumínio, sílica para fazer vidro, petróleo na produção de plásticos e árvores para gerar papel, segundo o engenheiro Bertrand Alencar, um dos conferencistas que participou da Semana Internacional de Redução, Reutilização e Reciclagem, realizada recentemente no Recife. Em alguns aspectos, o Brasil tem assinalado recordes no que se refere à reciclagem. De cada 100 latas produzidas para indústrias de cervejas e refrigerantes, 99 são reaproveitadas. O lixo é composto de 50% de resíduos orgânicos, 25% de recicláveis e 25% de rejeitos, integrados por pilhas, baterias e lixo hospitalar. A atividade dos catadores é tão intensa que começa a diminuir o volume de lixo transportado pelas prefeituras e, conseqüentemente, as despesas com essa rubrica. Além de cooperativas, catadores isolados e órgãos públicos, empresas tais como supermercados estão fazendo elas mesmas suas operações de reciclagem, auferindo alguma renda extra. Cada habitante, em média, em áreas urbanas, gera 700 gramas de lixo por dia. O que fazer, como fazer, a que custo fazer, com tamanho volume, é um dos grandes problemas da nossa era. O tamanho da reciclagem significa a nossa criatividade para enfrentar e solucionar problemas, com reflexos econômicos e sociais. (*) É desembargador do TJ/AL.