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Alma ocidental

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| EDUARDO BOMFIM * Talvez, venha a ser a síntese mais preciosa sobre D. Quixote de La Mancha o ensaio de San Tiago Dantas, ?Um apólogo da alma ocidental?, lido durante a celebração dos quatrocentos anos do nascimento de Miguel de Cervantes, promovido pela Espanha em 1947. Jurista, ministro das Relações Exteriores em 1962, deputado federal em 1959, San Tiago Dantas foi um homem de cultura e conduta política exemplares. Em apenas 58 páginas, traça um dos mais inteligentes estudos sobre o significado de uma obra-prima que se tornou imortal. Todo o texto busca decifrar exatamente o sentido imperecível da ?triste figura do cavaleiro andante?. Dantas mostra que tal circunstância não pertence ao domínio da crítica literária. Ainda menos ao da investigação histórica. Diz que Quixote adquiriu essa condição secular na consciência ocidental, para as nossas próprias ações como modelo de conduta, através da categoria de símbolo. Constitui-se em algo que ilumina o mundo real, irradiando exemplo de comportamento. Penetra de forma notável na consciência humana comum. Para tanto, o autor cita Goethe em uma das suas exaltações. ?Ao menos uma vez tenham a coragem de se abandonar às suas impressões, de se deixarem divertir, de se deixarem comover, de se deixarem elevar, instruir, inflamar e encorajar por alguma coisa de grande; e não pensem que tudo está perdido quando não se pode descobrir no fundo de alguma obra, alguma idéia ou pensamento maior?. Esbravejou o grande escritor alemão. Eis a grandiosidade do ?Homem de La Mancha?. A tarefa da inteligência humana seria extrair o valor das coisas, a luz da obscuridade. Quixote não faz outra coisa: argumentar, refletir, procurar. Renovar um mundo povoado de injustiças como tarefa indeclinável. Mover-se pela causa, enfrentar gigantescos moinhos de ventos. Nesses exemplos, percebe-se o sentido contrário à hipocrisia. Cervantes, diz-nos San Tiago, decifrou o heroísmo comum, ?herói é quem quer ser o que é?, e o motivo que leva a sua degenerescência. Querer salvar é sublime; julgar-se salvador é ridículo, diz o personagem, oferecendo à humanidade advertências e linha de conduta. É sem dúvida, uma moral de todas as épocas. Quando nos recusamos a enfrentar difíceis obstáculos, nos opomos ao espírito de Quixote. Quando marchamos em direção ao temerário, deixando nas mãos do incerto o resultado das nossas ações, agimos quixotescamente. Quixote é rebelde, inconformista. Uma fonte de sabedoria e ensinamentos. (*) É advogado e secretário estadual de Cultura.

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