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Por que n�o uso afro-descendente

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| BERNARDO JOFFILY * Recebi uma e-mensagem recomendando o uso preferencial, se não exclusivo, da palavra afro-descendente, para designar os brasileiros que têm nas veias o sangue dos africanos aqui escravizados na Colônia e no Império. Argumenta-se que até o presidente Lula aderiu ao novo uso, no seu discurso para saudar o presidente nigeriano. Resolvi que não seguirei esse exemplo presidencial. Seguirei usando palavras como negro, preto ou crioulo. Mas acho que devo aos adeptos de afro-descendente uma explicação. As palavras são seres estranhos. São como moedas de um mercado grátis. Ali circulam, e ao circular incorporam valores, às vezes incomensuráveis, que nenhum decreto de uso obrigatório e nenhuma cartilha ?politicamente correta? há de conseguir impor. Nada contra palavras novas. Eu mesmo, como tantos, até já cunhei algumas, novinhas em folha, e torço para que certas delas, que me pareceram bem cunhadas, agradem a raça humana e entrem de fato em circulação. Mas reconheço a incomparável superioridade das palavras velhas, usadas, brunhidas, polidas e valorizadas desde a noite dos tempos por incontáveis bilhões de empregos, sempre mutantes, é certo, mas cada um deles agregando algo à teia dos seus sentidos. Por isso, com o devido respeito pelos adeptos do afro-descendente - tanto os daqui como os dos Estados Unidos, onde ele, aparentemente, terminou ?pegando? - não vou aderir. Data venia, ficarei com negro, preto, crioulo. Ficarei com as palavras que usou Zumbi nos Palmares. Com as que Cosme Bento das Chagas ensinou, na escola que fundou em seu quilombo no tumultuado Maranhão da Balaiada, talvez a primeira escola brasileira em que a criançada negra, preta, crioula, pôde entrar para aprender e não para lavar as sujeiras dos brancos. Fico com as palavras de João Cândido, o Almirante Negro, e as de Osvaldão, Preto Chaves e Elenira da Guerrilha do Araguaia. E as de Pixinguinha, Clementina e Clara Nunes, do ministro Gil. E de Leônidas, Pelé, Ronaldinho Gaúcho. Ateu fervoroso que sou, fico, com o devido respeito, com as palavras de Mãe Menininha do Gantois. Quanto à afro-descendente, tampouco a hostilizo. Acho-a desengonçada, tão comprida, com suas seis sílabas e esse hífen no meio, além da visível marca ?made in USA?; mas dou uma chance a quem a prefere. Assim eu sigo o sábio exemplo do baiano Gordurinha, da carioca Almira Castilho e do paraibano Jackson do Pandeiro, que admitiam, sob condições, a possibilidade de ?botar bibope no seu samba?. Eu botarei afro-descendente no meu artigo quando essa palavra chegar nas conversas de bar, nos sambas-enredo, nos namoros de esquina, nas letras de forró. (*) É jornalista.

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