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Opinião

A voz do mar e a das ruas

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| SÉRGIO COSTA * Depois que li a Luta pelo direito, do jurista alemão Rudolf von Ihering, convenci-me ainda mais de que o problema brasileiro não é econômico e/ou financeiro, é ético. Sem ética, afirmo, a economia não passa de uma atividade amorfa e infrutífera. A realidade não me deixa mentir. Temos riquezas naturais inesgotáveis, e invejadas são as nossas potencialidades humanas. Mas os apelos das paixões sobrepõem-se as necessidades do País. Inconformado com essa situação, tentei extrair do mar respostas para a má gestão dos negócios públicos. Sentei na areia úmida e fiquei escutando a voz das ondas. Seus murmúrios transmitiam mensagens que, aos poucos, eu ia atinando. Compreendi que o indelével poder de absorção e equilíbrio do mar pode ser comparado a um grande depósito de confiança. Claro, por que será que milhares de rios deságuam seus prantos e suas esperanças? E nós, como que arrebatados por suas correntes de pundonor, investimos nele, colhemos seus frutos e perto das suas águas queremos morar. Por outro lado, quando agredido, o mar se enraivece ?agiganta suas ondas e, com voz ensurdecedora, expulsa das suas costas os potenciais predadores. Recorro ao mar porque tenho dificuldade de entender nossos governantes. Às vezes, pergunto-me: será que eles jamais aprenderão a ouvir a voz das ruas? Ela está a dizer que os males da nossa economia são gerados pela negligência no uso e na fiscalização das riquezas do povo. O resultado dessa leviandade é sintomático: endividamento sem melhoria da qualidade de vida da população. Mas os gritos das ruas insistem em dizer que carecemos de mecanismos rápidos e eficazes no sentido de expulsar a impunidade e os privilégios dos poderes republicanos, pois, somente assim, evitaríamos que a pilhagem continue adiando nossos sonhos. Essas, não outras, são as medidas fundamentais para conquistar a confiança do mercado e, consequentemente, gerar os investimentos de que tanto necessitamos para crescer. Essas decisões, por outro lado, vão se chocar com os ventos fortes dos interesses particulares. E, diga-se, não é qualquer governo que ousa enfrentá-los. Diante deles muitos se acovardam. E, ao se acovardarem, ?esquecem? de fazer os deveres de casa a que nos referimos. Pior: insistem em navegar pelas águas turvas do endividamento estéril, do juro escorchante e da sanha fiscal. Deve ser mais fácil. Quem sabe assim conseguem deixar latente a indolência e a conveniência de seus atos?! (*) É contador.

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