Opinião
Reino encantado
| RONALD MENDONÇA * Avô há quatro anos, estou continuando um aprendizado iniciado em 1971, quando nasceu minha primogênita Lavínea. Apesar de todas as doçuras e enlevos que essa nova etapa encerra, nem sempre é tarefa fácil. Embora fora de forma e com idade esgotada para umas tantas atividades lúdicas - correr e saltar, por exemplo - ainda há reserva física suficiente para carregá-los nos ombros sem muito sofrimento, pleno do mesmo orgulho íntimo com que fazia com os meus filhos. Freqüentadores assíduos da livraria do shopping, o meu Caio, que faz o avô derreter-se ao chamá-lo de vozinho, é um apaixonado por bichos, particularmente dinossauros. Atento folheador de livros infantis, não há uma figura de animal que passe despercebida. Ai do interlocutor que escorregar na hora de nomear o bicho, dando nome errado, porque recebe um lacunar ?É nada!?, expressão aprendida há algumas semanas. Nos seus dois anos, faz parte da rotina de Maria Clara leituras como aperitivo para o sono noturno. Fixada na história de Chapeuzinho Vermelho, tem redobrada atenção aos detalhes sonoros do conto, sobretudo às sinistras pancadinhas na porta da vovó. Em relação ao temível Lobo Mau, mantém contraditórios sentimentos, oscilando entre curiosidade e medo, que só Freud pode explicar. Por essas e outras, sem deixar de ter um olhar desconfiado na dura realidade que nos cerca, conviver com os netos Caio e Maria Clara tem sido um renovado exercício de magia e fascinação. Mas, às vezes, ?a dura realidade que nos cerca? está adornada por pura fantasia. Foi o que aconteceu agora com a convocação extraordinária do congresso. O esforço extra custará cerca de 100 milhões aos cofres da nação. Parece muito, mas a importância do trabalho desenvolvido e sobretudo o empenho com que esses nobres parlamentares se debruçarão nos graves problemas nacionais justifica plenamente o gasto. De fato, o povo brasileiro só tem alegrias com seus representantes, além de sobrados motivos para deles orgulhar-se. Por isso, nada mais justo que eles tenham essa micharia a mais para comemorar o merecido Natal. Aliás, devo ao atual momento o resgate de minha crença em Papai Noel: ele é alagoano, mora em Brasília e se chama Aldo Rebelo. (*) É médico e professor da Ufal.