Opinião
Quando o po�o est� seco, conhecemos o valor da �gua
| JORGE BRISENO * Embora chamada de Terra a substância mais abundante na biosfera do nosso planeta é a água. Estimamos em 1.360.000.000 de km cúbicos de água. Parece um número infinito, porém, não é. Desse número 99,7% não serve para consumo (água dos oceanos) ou tem custo de exploração ainda proibitivo (calotas de gelo polares ou águas subterrâneas com profundidade abaixo de 800 metros). Chegamos, portanto, a constatação. Só dispomos de 0,3%, ou 4 milhões de km cúbicos de água doce em condições de exploração para todos os habitantes da Terra. E quando falamos de habitantes, não devemos esquecer das outras espécies de seres vivos. Eles também necessitam de água para sua sobrevivência. Para complicar, a água doce se encontra mal distribuída no planeta. No Brasil, por exemplo, que possui em seu território praticamente 13% de toda água doce disponível na Terra, em torno de 68,5% dela está localizada na região Norte que possui apenas 7% da população nacional. No Estado do Amazonas, a disponibilidade de água por habitante chega a atingir 879.000m3/ano, um número estrondoso quando lembramos que o Banco Mundial considera como razoável 2.000 m3/ano por habitante. Abaixo desse valor considera-se como situação de esgotamento. Já o Nordeste, com 29% da população nacional, detém apenas 3% do potencial de água doce disponível no Brasil. Em Alagoas, chamada de forma completamente indevida de Paraíso das Águas, dispomos apenas de 1.751m3/ano por habitante, valor abaixo do recomendado pelo Banco Mundial, enquanto o Ceará possui 2.436 m3/ano por habitante, segundo o prof. Aldo Rebouças. E ainda temos ministro defendendo transposição do São Francisco e levando na conversa presidente que não governa e não sabe onde tem as narinas. Nós, em Alagoas, repetimos tanto o bordão de Paraíso das Águas que terminamos induzindo o ministro a pensar que aqui temos água aos borbotões, principalmente no semi-árido alagoano, um dos de maior densidade populacional do Nordeste. A transposição, se houvesse um debate sério como deseja o bispo, só se justificaria para o abastecimento humano das regiões mais secas de Pernambuco e da Paraíba, áreas comprovadamente com deficiência hídrica. O tema água, além de complexo é realmente apaixonante e encantador. Temos ministro que ?encanta? presidente com projeto de transposição irresponsável e, aqui em Alagoas, temos nossos latifundiários que ?encantam? e conseguem levar na conversa lideranças políticas e a mídia com o discurso hipócrita de fornecer água para a população pobre do semi-árido, quando na realidade, visam apenas obrigar o setor público a manter em operação partes desnecessárias de sistemas de adução de água de onerosa manutenção, para apenas suprir os seus sistemas de irrigação realizados com água roubada. (*) É engenheiro e presidente da Casal.