Opinião
Volta por cima
| José Medeiros * Para quem gosta de leitura, receber livros de presente é sempre motivo de alegria. No Natal, recebi algumas obras e as coloquei numa seqüência de leitura para os feriados e momentos de lazer. Decidi iniciá-la pelo Médico de Homens e de Almas?, da escritora inglesa Taylor Caldwell, que levou quarenta e seis anos de pesquisas para escrever emocionantes histórias sobre a vida de São Lucas, patrono dos médicos. Todavia, folheio o segundo livro que me foi presenteado: Quase Tudo, da cronista e socialite Danuza Leão. Fiquei impressionado pelo número de fotografias que condensa, representativas de várias fases da vida social e política brasileira. Das fotos à leitura, foi um passo. Surpreendi-me com uma história cheia de lances e de imprevistos, que vale como lição de vida: ora alegre, ora triste, e, em muitos momentos, dramaticamente dolorosa. A realidade muitas vezes supera a ficção. As fatalidades de que foi vítima superam o que se possa imaginar. Ela venceu momentos amargos e buracos negros existenciais. Aos vinte anos, casou-se com Samuel Wainer, dono do jornal Última Hora (Rio), que tinha o dobro de sua idade. Tempos depois, com três filhos pequenos, apaixonou-se pelo cronista e compositor Antonio Maria, funcionário do jornal do marido, com quem viveu um grande amor. Daí em diante, num ritmo frenético, uma seqüência de mortes traumatizou a cronista: morreu o ex-marido (a quem ela ainda dedicava admiração e amizade) e Antonio Maria, com quem vivia. Nem bem se recuperara desses golpes do destino, seu pai suicidou-se e sua mãe faleceu meses depois. As tragédias familiares não pararam aí. Sua irmã, a cantora Nara Leão, esposa do cineasta alagoano Cacá Diegues, foi acometida de um tumor cerebral num momento glorioso de sua carreira artística. O filho mais velho, funcionário da Rede Globo, foi vitimado em um acidente de automóvel. Ela não resistiu a tantos infortúnios. Virou alcoólatra. Sobreveio uma terrível melancolia e profunda depressão. Sua vida parecia um túnel sem saída. Abandonou as atividades profissionais. Desapareceu do círculo social. Dez anos se passaram. Mas ela tentava reagir. Uma luzinha do seu inconsciente foi transformando-se em luminoso farol. Venceu seu instinto de conservação. A medicina e sua força de vontade venceram a depressão. Retornou às atividades jornalísticas, retomando seu lugar de destaque no colunismo social. Uma mulher corajosa, que mudou uma batalha quase perdida numa festa de regresso à vida. (*)É médico e ex-secretário de Educação e de Saúde