Opinião
EUA: fim da hegemonia?
| Sérgio Barroso * Nas réstias no pôr do sol de 2005, ressurgiram as idéias do ocaso da hegemonia mundial dos EUA. Vendo o desastre Iraque, o professor José L. Fiori (Carta Capital, 28/12/2005) aposta num 2006 sem uma liderança capitalista mundial. Infelizmente não acredito nisso. Sobre o padrão dólar, os vaticínios de colapso têm aproximadamente 30 anos, quando os EUA, respondendo aos abalos econômicos em seu dominium, impuseram um dólar sem qualquer lastro (1971); deixaram flutuar as taxas de câmbio (1973); subiram aos céus as taxas de juros (6% a 23%), de 1979 a 1981. Coube ao ?programa? neoliberal espraiar a liberalização e desregulamentação financeiras, desde os anos 80 do século passado. Os EUA consolidaram, nos 90, um novo padrão de acumulação capitalista: a ?financeirização? da riqueza. Ora, o pilar da sustentação das hegemonias imperiais é o econômico, sempre atado à força militar e à dominação político-ideológica. A 1ª Revolução Industrial (+ 1760 - 1830), inglesa, difundiu o novo modo de produção; engrenou-se ali a expansão colonial e imperialista. O império britânico foi sendo desbancado pelos EUA, economicamente, ao findar o século XIX. O padrão ouro-libra, base do poderio britânico, colapsa na 1ª Guerra Mundial (1914 - 1918). O novo padrão ouro-dólar crava sua completa dominância nos acordos de Bretton-Woods (1944). Voltemos a 2005. O dólar manteve denominação em cerca de 66% das reservas de todos os bancos centrais do mundo; junto aos US$ 420,7 bilhões de orçamento militar (16 vezes o orçamento militar da China!), setores do partido Republicano passaram a defender o direito à tortura, pela CIA, em ?terroristas?; os EUA foram interpelados pelo comissariado da União Européia por uso clandestino de aeroportos, por aviões da CIA, levando ?prisioneiros terroristas?; o Pentágono anunciou, para 2014, a utilização de robôs (máquinas ?inteligentes?, incansáveis?, ?mortíferas?; site Le Monde, 25/10/2005), substituindo ?certas funções? humanas em operações militares. Relembro que Bush indicou, para Secretário de Justiça, Alberto Gonzales, conhecido pelos seus pareceres a favor da tortura. E que o documento oficial do Pentágono, ?A Estratégia de Defesa dos EUA? (18/3/2005) lista 25 países candidatos à intervenção militar e previa retirada e reorganização de bases militares: são 702 instalações em 132 países, 8 mil ogivas nucleares, 2 mil em ?alerta vermelho?, discursou corajosamente Harold Pinter, o último prêmio Nobel em Literatura. (*) É médico.