Opinião
�CONES DE BARRO
Observando este mundo engraçado descobri que há pessoas, semelhantes a acervo de museu. Precisa estar contextualizado, com plaqueta e tudo. Caso contrário, não existem. Ainda pior é não terem, por si mesmas, uma identidade, própria, autêntica e sua, realmente. Por isso vivem em colegiados que se dedicam a trocar elogios e louvores mútuos. Uma espécie de vassalagem, com direito a arautos e bobos da corte. Há também a glória pessoal que mesmo cercada pelo limite do potentado tem brilho de um cometa que, rapidamente, passa. Além fronteira é um mortal anônimo. Um defunto, apenas, se morrer por lá. Mas como diz o ditado: ?Em terra de cego quem tem um olho é rei?. É assim que esses ícones de barro se estabelecem pomposamente em um festim garboso e ao som de trombetas recebem lauréis. Ah! Como sou teimoso nestas minhas divagações e devaneios: ?A vaidade é a bem-aventurança dos néscios, dos tolos e semidoutos?! Mas a vaidade é, muitas vezes, o combustível necessário para construir seus reinos dissidentes e suas cortes. Como diz Leonardo da Vinci: ?Pouco conhecimento faz com que as criaturas se tornem orgulhosas. Muito conhecimento, que se tornem humildes. É assim que as espigas sem grãos erguem desdenhosamente a cabeça para o céu, enquanto que as cheias as baixam para a terra, sua mãe?. É tão difícil viver o custo da glória que o franco anonimato é, às vezes, uma sábia opção. Doença contagiosa é a vaidade humana. Basta um elogio que o corpo se acende de um brilho radioativo. Os efeitos são terríveis! Quando é demais, mata. E como diz o velho Proust: ?A sabedoria não nos é dada. É preciso descobri-la por nós mesmos, depois de uma viagem que ninguém nos pode poupar ou fazer por nós?. É preciso ser sábio para entender quando alguém nos dá uma dose exagerada deste remédio: o elogio. Mas o elogio é semelhante a uma canção de ninar e alguns adormecem. Aqueles que apenas adormecem acordam mais tarde e lembram que é outro dia. Outros, quando não morrem, fazem perdurar aquele dia por uma vida inteira, ensimesmados neste encanto deletério que é a própria vaidade. E, finalmente, como ?não basta à mulher de César ser honesta é preciso parecer honesta?. O mundo é o que é visível aos olhos. É o que aparenta ser mesmo não sendo. Quem não pode fazer, compra feito. E quem não se dispõe a esse jogo vai a degredo. Afinal, é a vaidade humana que subjuga e põe no cepo cabeças inteligentes enquanto o algoz se rejubila. Não há como sobreviver senão com dupla cidadania. Ou negar que ?a terra gira em torno do sol?, feito Galileu Galilei. Como disse Jesus Cristo: ?Quem tiver ouvidos, ouça?.