Opinião
Cegueira, transposi��o e integra��o
| Bernardo Bastos * Há algum tempo notamos que não existem mais pessoas cegas. Algumas pessoas sensíveis acharam que os cegos ficariam chateados em ser chamados de cegos. Daí a preferência pelo termo ?deficiente visual?, mais tarde substituído por ?portador de necessidades visuais especiais?. O mesmo fenômeno aconteceu com a antiga empregada doméstica, que vem sendo substituída pela secretária. O peão de obra é colaborador e, em algumas empresas, os funcionários são chamados de associados. Não nos consta que os cegos tenham tido alguma melhora nos sentidos. É óbvio, contudo, que o termo ?portador de necessidades visuais especiais?, além de ser enorme, confunde mais do que explica. Nós, os míopes, temos necessidades visuais especiais (óculos) e não somos cegos. A mais nova e falaciosa substituição de termos é a recente ?Integração da Bacia do Rio São Francisco (RSF)? em detrimento da ?Transposição das Águas do RSF?. Ora, ao que nos consta integrar é tornar inteiro, completo. O projeto do governo federal não visa tornar a bacia inteira; visa sim levar suas águas para o Nordeste Setentrional. Ainda que se use o termo integrar no sentido de juntar, seria totalmente impróprio o termo ?integração da bacia do RSF?. Neste caso, seria mais honesto falar de ?integração da bacia do Rio São Francisco à bacia do Rio Tal?. Da maneira que se fala pareceria óbvio que não há problema algum com o projeto do Governo Federal, pois, dificilmente algo que será ?integrado? pode ser prejudicado. O termo é tendencioso na medida em que evita a discussão sobre os impactos e eventuais benefícios que este projeto acarretaria: 1. O projeto visa ao abastecimento humano ou ao subsídio à produção agrícola de grandes produtores rurais? 2. Quais os impactos ambientais esperados e qual a confiabilidade dos respectivos estudos? 3. É conveniente abastecer outras regiões quando o rio não abastece sequer as regiões no entorno de suas margens? 4. Ainda que os impactos fossem reduzidos frente aos benefícios, o custo da obra justificaria sua implantação? 5. Seria um tiro de misericórdia no rio, já tão explorado para geração de energia? 6. Por que se fala na captação de uma vazão ínfima quando o projeto prevê um sistema para captar uma vazão consideravelmente maior que a anunciada? 7. O que aconteceria com as regiões que tiverem suas águas suprimidas para atender ao projeto? Espero sinceramente que, diante de problemas como este, não estejamos ?portadores de necessidades visuais especiais?. (*) É engenheiro civil e advogado militante. ([email protected])