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Opinião

No limite da paci�ncia

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| José Medeiros * Creio que o mês de dezembro é, por excelência, o mês dos discursos. São muitas solenidades e comemorações. Bons discursos são ouvidos com prazer e interesse, mas há as exceções comprometedoras. Vinte minutos de duração cai bem; meia hora, tolera-se; uma hora, o assento da cadeira esquenta. Mais de uma hora, o ouvinte já não está acompanhando a linha de raciocínio do orador. Fiz uma autocrítica severa dos muitos discursos que proferi ao longo do tempo, alguns deles bem demorados; devo ter aborrecido a paciência dos que me ouviam. Iniciava esta crônica quando lembrei-me do trecho de um poema, do qual repito alguns versos, pela semelhança com o assunto em pauta. ?O orador falava e as pessoas o ouviam atentamente. / O orador falava e algumas pessoas o ouviam com alguma atenção. / O orador falava e as pessoas já o olhavam sem nada ouvir. / O orador mal falava e as pessoas já abriam a boca em sinal de tédio e fastio. / A atitude diante do orador já era de indiferença e desagrado?. Pelo visto, esgotara-se a paciência das pessoas presentes. Palavras do famoso orador Padre Antonio Vieira: ?Desculpem-me, pela extensão do discurso: não tive tempo de ser breve?. Opinião de um mestre da oratória: ?Seja breve, que você agrada a maioria!? Não é o excesso de tinta que faz o colorido exato, é a pincelada justa, o retoque final. O bom painel é uma harmonia de tons. Picasso costumava dizer que há dois tipos de artista: ?aquele que faz do sol uma simples mancha amarela; diminui, encurta e empobrece a imagem de que dispõe. Paralelamente, há aqueles, que de uma simples mancha amarela fazem um sol, brilhante, rico de luzes e cores?. Os literatos, poetas, escritores, artistas e oradores são felizes quando conseguem transformar manchas amarelas em sóis. Quando criam, alargam, emolduram e enriquecem a imagem sem necessitar de excesso de tinta ou de palavras. Um orador, desses oradores ?crônicos? que não podem ver um microfone e logo se agarram a ele, fazia um discurso numa solenidade religiosa: algumas pessoas bocejavam, outras reclamavam o tempo perdido. Ele não se deu por vencido, queria ser aplaudido a qualquer custo. Tentou concluir bem, alterou a voz e foi enfático: Viva Nossa Senhora dos Prazeres! Viva! Vivas e palmas se seguiram a esse extraordinário fechamento. (*) É médico e ex-secretário de Educação e de Saúde.

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