Opinião
Ainda a It�lia
| Lysette Lyra * Terminamos nossa visita a Roma na Basílica de São Pedro, o mais imponente e belo santuário do mundo. É uma quarta-feira, dia em que o Sumo Pontífice concede sua bênção semanal. A praça em frente à igreja, entre a colunata de Bernini, está repleta de fiéis. Há assentos para todos, divididos em comunidades cristãs que vêem das mais diferentes partes do planeta. Todos aspiram um lugar no reino dos céus, cujas chaves São Pedro possui. Um frio forte nos faz tremer debaixo dos casacos. Dirijo-me ao espaço destinado aos deficientes em cadeiras de roda. Dão-me todas as atenções. O lugar onde fico recebe o intenso calor do sol, o que me defende da temperatura baixa. Um toldo de brocado foi colocado no adro, sobre o altar, para proteger o Santo Padre. Logo ouvimos um ecoar de vivas e aplausos. É sua santidade, o papa Bento XVI, que se aproxima num jipe, pelo meio da multidão, acenando para os fiéis com um largo sorriso no rosto. É ainda moço e desembaraçado, o pontífice. Desce do veículo e vem cumprimentar os peregrinos mais próximos. Os paraplégicos são os primeiros e, como estou no meio deles, tenho a chance de vê-lo bem de perto. A cerimônia demora duas horas e meia. Quando termina sigo pela praça de São Pedro em busca de um táxi, impossível, com aquela multidão. O jeito é enfrentar as ruas, com trânsito e tudo, até onde eu possa encontrar um transporte. Possuo um mapa da cidade entre as mãos e não tenho medo. Acompanho aquele tráfego de motos, bicicletas, carros e ônibus com uma calma que me surpreende. Um senhor, que passa, pergunta-me em tom de brincadeira: ?Como vai a sua Ferrari?? Rio-me da pilhéria. Chego ao centro de Roma. Encontro o Corso Emanuel II e não ouso enfrentá-lo na minha cadeira de rodas. O movimento nessa artéria é impiedoso. Atravesso a avenida e sigo por uma rua mais tranqüila. Os dois lados das calçadas estão totalmente ocupados por veículos estacionados. Tenho mesmo que seguir pelo asfalto. Espero que os carros e as motos passem e, no espaço entre estes e os próximos, dou uma corridinha. E assim vou me adiantando até que encontro um restaurante simpático e que me permite entrar sem empecilhos. Por sorte o dono fala português e tem uma namorada no Brasil. Almoço, conversamos e, depois, ele pede um táxi, por telefone, para mim. Leva uma hora para consegui-lo. Chego estafada ao hotel, mas feliz. Sinto-me a própria Fittpaldi com a minha coragem e essa inusitada experiência. (*) É escritora.