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Opinião

Equil�brio na censura

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| Dom Fernando Iório * O equilíbrio de nossa censura depende muito do que soubermos e quisermos enxergar nos outros. Repetidas vezes, vejo sobrancelhas arqueando-se, ironicamente, diante de certas atitudes de alguém. Lamento a palavra errada proferida na hora inoportuna, fruto de enganos e falsas abordagens. Não deixa de ser assustador vivermos segundo o nosso ponto de vista, achando que os outros são aquilo que deles pensamos. Trata-se de sobreviver ou naufragar, de congelar ou explodir no conceito que fizermos do mundo dos outros. Nisso reside nossa possível tragédia: criar o mundo que pensamos na vivência de alguém. Não deixa de ser por demais humano corrigir nossos pensamentos truncados, conseguindo, com audácia, mudá-los para melhor, atingindo o real. Não podemos ser fantoches de nossos pensamentos vãos, desfigurando a honestidade do agir alheio. O interessante é que desejamos ser malabaristas do nosso próprio picadeiro. Nele nós mandamos. Nele impera o nosso pensamento, como senhor de tudo quanto quisermos pensar sobre o agir de nossos semelhantes. Feliz de quem, de logo, percebe a distinção entre o pensado e o real. Precisamos de diálogo para reconstituir o verdadeiro rosto do outro. Não é de bom alvitre asseverar: Penso assim, logo será assim. Eram dois monges. Sempre venciam estradas juntos. Certa feita, estavam para atravessar um rio quando se depararam com uma jovem, por demais, bela. Ela também desejava atravessá-lo, apesar de tremer de medo. Um dos monges atendeu-lhe o pedido, resolvendo colocá-la nas costas, até a outra margem do rio. Diante do que acontecera, o outro monge indignou-se, revoltou-se. Afinal de contas seu amigo havia quebrado uma regra do Mosteiro, a de que um monge nunca deveria tocar uma mulher. Ora, além de tocá-la, seu companheiro a colocara nas costas. Era demais. Caminharam juntos, nada de censura. Quilômetros se passaram. A viagem continuava, até que chegaram ao Mosteiro. Foi quando o monge, interiormente indignado, não suportando mais guardar, só para si, sua revolta, disse ao amigo: - olhe, terei que falar ao superior sobre seu comportamento proibido. - De que está você falando? - Você se esqueceu? Não acredito! Você carregou aquela linda jovem sobre os ombros! O monge acusado riu e, calmamente, replicou: - Sim, eu a carreguei, mas a deixei na outra margem do rio há mais de 8 quilômetros atrás. Mas, você ainda a está carregando em seus pensamentos. (*) É bispo de Palmeira dos Índios.

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