Opinião
Tributo de gratid�o
| Graça Carvalho * Os dias amanheciam quase sempre iguais, o sol acordava lavando o rosto nas águas da Jatiúca, o vento varria as ondas e as espumas beijavam as areias ainda adormecidas da praia. Dos coqueiros vinha o balé das folhas, no compasso da sinfonia do mar. Era assim aquele 27 de dezembro de 2005; a vida começando a se levantar quando um canudo cinzento começou a se erguer lá nos fundos do Cheiro da Terra, num instante toda a paisagem mudou. Os pássaros em retirada, as pessoas assustadas, sem saber o que fazer. O fogo se alastrava passando de loja em loja, sem respeitar a beleza dos bordados, a riqueza das rendas, do filé, das peças em madeira, cerâmica, o trabalho suado de nossos artesãos. O fogo passava lambendo tudo, devorando tudo, e a gente ali, na frente, impotentes, desesperados, assistindo a queima de nossos esforços, da nossa vida e por ironia do destino, na frente da imensidão do mar, com tanta água!!! O desespero se juntou a dor, a revolta, a procura de um culpado. E agora, o que fazer? Era só fogo, e o cheiro de esperanças e sonhos feitos em cinzas. Do museu do cangaço, onde Maria Bonita deleitava os turistas com a história de Lampião, tão bem narrada, não ficaram nem as paredes de pé. Todo um acervo queimado. Coitado do Lampião, mesmo depois de morto e decapitado, não escapou de outro castigo, foi também cremado. Mas não foi somente o Lampião que foi cremado, foram centenas de esperanças, de pratos cheios de comida, de sobrevivência. Quantas pessoas no dia seguinte não tinham o que colocar na panela! Engraçado que só agora a gente começa a sentir tudo que emanava daquele Cheiro da Terra. Tudo que estava agregado àquele lugar, a sua importância como divulgador da nossa cultura. Era só ali que São João e seus colegas de Junho eram festejados durante todo o mês! Dos festivais folclóricos, rodas de capoeira, das peças artesanais que contam um pouco a história da nossa gente, mas principalmente como o grande gerador de empregos e renda. Eram mais de 200 famílias que buscavam ali seu pão de cada dia. Meu Deus, queimaram coisas demais! Mas, da cor cinza que domina a paisagem, ainda haveremos de ver ressurgir um ??cheiro novo??, uma e essência nova, a essência da coragem, da bravura, da fé de todos nós que fazemos e comercializamos artesanato. Gente que tem no corpo o próprio Cheiro da Terra. Obrigada Cheiro da Terra, você nunca mais vai sair do meu coração. Cheiro da Terra... Cheiro de Saudade!!! (*) É artesã.