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Nº 5730
Opinião

O mist�rio do olhar

| Dom Fernando Iório * O olhar para o alto, com as mãos estendidas, bem que revelam o ritual da bênção no culto católico. Certos olhares, não há negar, vêm carregados de inúmeras paixões da alma, acrescidos daquele poder mágico que lhes confere poderosa

Por | Edição do dia 07/02/2006 - Matéria atualizada em 07/02/2006 às 00h00

| Dom Fernando Iório * O olhar para o alto, com as mãos estendidas, bem que revelam o ritual da bênção no culto católico. Certos olhares, não há negar, vêm carregados de inúmeras paixões da alma, acrescidos daquele poder mágico que lhes confere poderosa atração. Não deixa de ser o olhar instrumento de energias interiores, quando fascina, fulmina, seduz, destrói e mata. Curioso conto antigo apresenta Tricastral, cujo simples olhar bastava para paralisar, fulminar, quando não, matar o guerreiro inimigo. Jean Paris tentou elaborar preciosa crítica das artes visuais baseada no olhar. Com efeito, onde melhor apreender o segredo de um pintor, senão no olhar com que retrata as suas criaturas?!... As metamorfoses do olhar não revelam, apenas, quem olha, senão também quem é olhado. É curioso observar as reações do fixado, sob o olhar do outro, ainda mais observar-se, sob olhares estranhos. O olhar é o reflexo da alma, já declarava o Mestre. Aparece, dessa maneira, o olhar qual símbolo e instrumento de íntima revelação. Mais ainda, torna-se precioso reator e decisivo revelador de quem olha e é olhado. O olhar de outrem sobre alguém constitui-se espelho a refletir duas almas. Ficam bem, a essa altura, estes versos de Baudelaire: “Homem livre, tu sempre amarás o mar!/ O mar é teu espelho, onde contemplas tua alma./ No desenrolar infinito de sua onda,/ Teu espírito não é um precipício menos amargo/ ... / Ó mar, ninguém conhece tuas riquezas íntimas/ De tal modo cuidas de guardar teus segredos”. Não duvido de que não deixa o olhar de ser como o mar, mutante e brilhante, reflexo, ao mesmo tempo, das profundezas submarinas e celestes. O olhar do Criador e da criatura constituem, de certo modo, o que em jogo na criação, segundo a concepção sufista do mundo. Invocam-se os dois, um ao outro, não existindo um para o outro, senão por meio de um e do outro. Sem esses olhares, perderia a criação qualquer ou toda a razão de ser. Usar bem o seu olhar não consiste em brincar com esse mundo das aparências, senão desvendá-lo para nele descobrir o olhar do Criador, como o fluir do seu tesouro, a revelar seus atributos. Somente assim - penso eu - a face divina torna-se epifania de nosso olhar. (*) É bispo de Palmeira dos Índios.

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