Opinião
Freire e Quixote
| Eduardo Bomfim * Recebi um correio eletrônico do amigo e companheiro militante paulista Augusto Buonicore com a tradução de Sonho Impossível. Uma letra de Ruy Guerra e Chico Buarque, para a peça sobre Dom Quixote. Muito conhecida, mas sempre atual pela contemporaneidade e generosidade que espalha para a humanidade, em contraponto aos pensamentos céticos ou pequenos. São palavras mágicas que elevam o espírito a estágios superiores. ?Sonhar mais um sonho impossível... Lutar quando é fácil ceder... Negar quando a regra é vender... Voar num limite improvável... Tocar o inacessível chão... É minha lei, é minha questão... Virar esse mundo, cravar esse chão, não me importa quantas guerras terei que vencer... E amanhã, se esse chão que eu beijei for meu leito... vou saber que valeu delirar e morrer de paixão... E assim, seja lá como for, vai ter fim a infinita aflição, e o mundo vai ver uma flor brotar do impossível chão?. Ora, essa não é uma tradução qualquer para uma peça conjuntural. Daquelas que o público meses, ou um ano depois, não mais se lembra. Trata-se de uma adaptação para a imortal obra do Homem de La Mancha. Um personagem que renunciou a si próprio em defesa de altos ideais. Já tive a oportunidade de comentar o excelente ensaio de Santiago Dantas sobre o sentido imorredouro dessa extraordinária peça literária. Talvez por isso, Augusto, e em nome de sua mulher e filhas, mandou-me a correspondência. Mesmo só com o texto, possui incrível capacidade de exalar a música em nossos ouvidos. E, coincidentemente, no mesmo dia, assisti a um documentário na Globo, sobre o notável pensador, educador, Paulo Freire. Uma reprise de uma entrevista de 1997, em pleno auge do pensamento neoliberal. Freire mostra, em curto espaço de diálogo, a sua dimensão de cidadão em um estágio avançado, ao sentir e agir. É como Byron citou em seu poema - ?Nada aconteceu, ele apenas passou para um outro nível de vida?. Outros fazem o contrário, descem degraus para o nada absoluto, agoniados em suas dores, culpas e delírios. Paciência, o mundo é assim mesmo, complexo. Freire era sonhador. Afirmou, ?sou um esperançoso inveterado?. Que esta esperança é fruto da natureza humana, constituída em processo histórico e antropológico. Declara - como se pode construir sem esperança, já que é da condição humana a sensação do inacabado. Grandes, Freire e Quixote. (*) É advogado e secretário estadual de Cultura.