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O olhar, o olho e o carnaval

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| Lenice Pimentel * Tenho a certeza. Viste-me e eu te vi, mas não marcamos esse encontro do olhar. Vestias, como sempre, uma bela fantasia que realçava o azul dos teus olhos que faziam ponte com o mar da Pajuçara tornando tudo mais bonito. Estavas cercada de pessoas que já não eram do meu conhecimento. Meu olhar acompanhava o teu jeito de falar, de sorrir, de dançar o frevo e de seguir espalhando alegria no asfalto quente daquele sábado de Carnaval. Eu, ali, sabia: já não mais fazia parte da tua vida. Lembranças. Passei o tempo do desfile do bloco a observar-te. Reconheci o teu jeito de tomar água de coco, de sorrir gentil quando falas com as pessoas e o olhar de quem não tem pressa na vida. Tentei perceber se estavas acompanhada, se algum dos homens ali presentes tinha alguma afinidade contigo. Talvez o homem tranqüilo, gênero intelectual, com seus cinqüenta e poucos anos, seja o eleito. Não sei bem o porquê, mas havia ali um quê de identificação com meus tempos de antes, do tempo em que partilhamos o amor. Agora, passado vários carnavais, as afinidades são leves sombras nas lembranças do Arlequim e da Colombina. Será que eu ainda estou elegante nesta fantasia? Não sei? Também não faz diferença para ti. A multidão deslizava embalada pela alegria de momo enquanto cantavam ??E se aqui estamos cantando esta canção / Viemos defender a nossa tradição??, eu ali tecia fantasias sobre ti, mas ao mesmo tempo sentia que a distância dos anos já não me fornecia material para os meus sonhos. Era a tua forte presença que me perturbava. Será que ainda continuas amante da poesia e do cinema? Será que ainda cultivas a elegância que transparece nos mínimos gestos? Ah! Não é para te censurar. Até gosto destes pensamentos e, no fundo, é só pura curiosidade de homem que deseja saber se ficastes melhor longe de mim. Por que deixei que tu partisses? Sei que era necessário para que pudéssemos preservar a nossa história. E nunca mais nos vimos, até aquele carnaval. Tua figura baila na minha frente e eu te perco na folia, mas o teu olhar olha. Como dois desconhecidos, o olho olha e não vê mas eu não tenho dúvidas: tu me reconhecestes. O olhar não engana. Sei que viste-me como eu te vi. O frevo te levava para longe e nunca mais os teus olhos se cruzaram com os meus. Continuei a buscar o teu olhar, mas em vão. O homem tranqüilo continuava ali. Daqui a mais dez carnavais vou ver-te de novo. Recordarei então o nosso casamento e este encontro. Lá, no futuro, desejo um leve aceno e um olhar. (*) É psicóloga ([email protected]).

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