Opinião
Recorda��es do carnaval
| Milton Henio* Estamos em pleno domingo de Carnaval. Aproveito para descansar e fazer uma boa leitura. E aproveito para recordar o passado. Ainda me lembro... Manhãs belíssimas de sol e muitas alegrias vividas na minha adolescência. Soltando minha memória vejo desfilar as cenas que emolduraram minha vida de jovem estudante do Colégio Guido ou aluno da Faculdade de Medicina: o corso com trocas de serpentinas e jatos de lança perfume, os tipos populares e os grandes foliões como Fusco, Alipão, Rubens Camelo, Zé Simões, Setton, Bráulio Leite e tantos outros que faziam parte tradicionalmente dos nossos Carnavais. As orquestras distribuídas pela rua do comércio dentre as quais era destaque a da Policia Militar, sob a batuta do Maestro Nicácio, as matineês da Fênix e os animadíssimos bailes do Iate, os gostosos sorvetes da Primavera, Bar Elegante, D K 1 e Xangai, onde a juventude fazia ponto de encontro refrescando o corpo e alegrando a alma com papos agradáveis. Bons tempos!... Vivíamos sob um clima de fraternidade. Todos se conheciam e cada qual representava o seu papel com respeito e harmonia. Belos tempos, inesquecíveis tempos, romanescos e pitorescos. Como as águas da fonte foram correndo... correndo e não voltarão jamais. Hoje o Pinto da Madrugada tenta reeditar aqueles bons tempos com os frevos e os sambas com letras românticas, que eram cantadas pelos foliões. Parabéns ao estimado Marcos Davi e toda a diretoria do Pinto pelo esforço em reviver os bons tempos. Já se foram cinqüenta anos daqueles momentos felizes. O Carnaval mudou. Coisas novas apareceram e que se tornaram rotina: música axé, uso de camisinhas, drogas, violência, sedução, muita prisão e medo da Aids. Hoje é domingo de Carnaval. Muita gente vai estar de ressaca sem ter brincado ou bebido. É a ressaca da alma. Tristeza por um amor desfeito, um filho drogado, um débito contraído, uma frustração. Deixe a tristeza de lado. Saia da ?fossa?, como dizem os jovens. Viva de olhos bem abertos para tudo que é belo no mundo. Saiba apreciar um pôr-do-sol, admirar uma flor, respirar sem pressa a brisa da manhã, escutar o canto da passarada, contemplar as estrelas enchendo os olhos com a beleza de um céu azul. Hoje é domingo de Carnaval. Quando a tradição desaparece, resta apenas para quem sabe sentir e recordar a doce claridade deste grande luar que é a saudade. (*) É médico ([email protected]).